Trinta e três


Agonia e êxtase

Nunca me esqueço de que Jesus, ao ressuscitar, manteve em seu corpo glorioso as marcas das chagas dos pregos. Não importa se se acredita nisso literalmente ou não: como metáfora é algo de uma riqueza profunda. Significa vida e morte andando juntas, como concomitantes que de fato são, e não consecutivas. Mostra que os sofrimentos pelos quais passamos têm uma contribuição essencial para nossa versão mais gloriosa, e não podem nem devem ser apagados, pois sem suas marcas não seriamos a versão melhorada de nós mesmos que somos. E isso se manifesta às vezes nos detalhes mais comezinhos da vida, como foi o caso comigo ontem na história que se segue.

Definitivamente as pessoas não fazem idéia do que seja o ofício de um tradutor, mais particularmente de um intérprete. Com certeza há vários mitos cercando a profissão. Vi isso no evento de ontem, em que tive que interpretar dois cineastas. O trabalho foi praticamente voluntário: contei somente com uma pequena ajuda de custo e reembolso do transporte, uma das duas condições que tive para aceitar o trabalho. A outra era conversar com os cineastas antes das palestras, o que é uma parte corriqueira da preparação de um intérprete, além da pesquisa de vocabulário técnico, leituras sobre o assunto a ser interpretado e sobre o palestrante, e o treino normal que temos que fazer em casa constantemente pra não enferrujar. As pessoas não têm idéia de quanto é valiosa pra nós a entrevista com o palestrante, e de quanto ela pode contribuir para o sucesso do evento.

Um exemplo ilustrativo: em 2002 interpretei pela primeira vez o monge inglês D. Laurence Freeman, que veio falar sobre a meditação cristã. Já o tinha ouvido falar, com uma intérprete (muito boa, por sinal), quase um ano antes, em 2001, e tive a oportunidade de ver que ele era um palestrante claríssimo, de vocabulário impecável e excelentes construções de frases, calmo, de pronúncia cristalina, e que estava acostumado a ter suas falas interpretadas, pois dava tempo à intérprete para traduzir o que ele dizia praticamente a cada frase. Além disso, comecei a praticar a meditação cristã, li e traduzi como prática diversos livros e textos dele tanto em inglês como em português e fiz um glossário específico para a palestra. Na entrevista que tive com ele um dia antes, porém, ele me falou que ia discorrer sobre a meditação e a jornada espiritual comparando-as a “labyrith” e “maze”. (????) Como as duas palavras em português são traduzidas por “labirinto”, eu queria saber qual a diferença entre as duas coisas em inglês, e ele me explicou que cada uma tem um tipo de construção: o “labyrinth” tem centro, enquanto o “maze” não tem. Chegando em casa fiz uma pesquisa de 10 minutos e descobri que uma outra palavra muito pouco comum usada para labirinto é “dédalo.” Com isso consegui fazer uma distinção em português durante a palestra entre as duas palavras em inglês. Simples, não? Todo mundo saiu ganhando: ele transmitiu melhor a mensagem, o público entendeu melhor e eu não paguei mico. Acontece que, se eu não tivesse me encontrado com ele antes, essa questão poderia virar um verdadeiro desastre na hora da palestra. Moral da história: mesmo que a fala seja simples, como era a de D. Laurence; mesmo que o intérprete conheça bem o assunto e domine o vocabulário técnico, como era o meu caso, preparação nunca é demais.

Por isso fiquei uma pilha de nervos com o sumiço dos cineastas, sendo que eu havia dito “N” vezes aos organizadores que precisava falar com eles antes, e cheguei ao evento estressadíssima. Tenho a nítida impressão de que as pessoas acham que o que vão falar é “simples”, é “fácil”, e alguém com um inglês “tão maravilhoso” como o meu não terá qualquer dificuldade pra fazer a tradução, imagine! Pouca gente se toca que, para um tradutor e intérprete, falar muito bem duas línguas é apenas um pré-requisito, mas não é isso que faz dele um tradutor, da mesma maneira que ter duas mãos não faz de ninguém um lutador de boxe. Para lutar o importante é saber como usá-las e treinar constantemente. Continuando, qualquer escorregão e lá iria por água abaixo uma reputação que está começando a ser construída a duras penas, e da qual eu dependo para o sucesso da minha empresa recém-nascida. E isso em plena sede do consulado britânico! Já pensou um fora lá? Podia deixar minha carreira em coma por um bom tempo. Essa foi a agonia do evento: o nervosismo, a frustração com a incompreensão das pessoas a respeito do meu trabalho, a raiva de não ter uma exigência profissional cumprida.

O êxtase veio quando dei conta muito bem do recado, mesmo sem a entrevista prévia com os palestrantes; veio com a sensação de dever cumprido, com a mensagem passada integralmente e com os elogios dos membros da platéia, um dos quais me falou que eu curei um trauma que ele tinha com intérpretes. Outro, mestre em letras que havia feito algumas interpretações anteriormente, consciente da dificuldade do trabalho, também veio me parabenizar. Ainda a colaborar com o êxtase veio a delicadeza do meu querido diretor Marcus que, ao perceber que só o palestrante tinha água para beber, deixou a palestra no meio para poder me comprar uma garrafa d’água antes que eu desidratasse por completo depois de mais de uma hora de falação. :-) Os pequenos detalhes, sempre eles, fazendo a diferença. Detalhes ou não, sendo bons nunca são por mim esquecidos. Valeu, Marcus.

“Many critics, no defenders

Translators have but two regrets:

When they hit no one remembers

When they miss no one forgets.”

Quem quiser a tradução disso por favor espere até amanhã, que por hoje isso aqui já deu. 



Escrito por Cris às 00h22
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A surpresa

Quando eu acho que o meu aniversário já tinha dado tudo o que podia dar aprendo que nunca é tarde para uma primeira vez. Pois hoje tive a primeira festa surpresa da minha vida. Chego à escola de cinema sem nem desconfiar que, graças ao Orkut, meu querido diretor Marcus havia descoberto a data e resolvido comprar um bolo e orquestrar um “parabéns” com meus colegas quando eu menos esperava. Quando desci as escadas a pedido dele não tinha a menor idéia de que iam me aprontar essa. Fiquei tão surpresa que achei que a festa era pra outra pessoa. A cara de tacho ficou devidamente registrada, em detalhes e por vários ângulos, pela câmera do Rafael e, se eu aprender a mexer direito com esse blog, acho que uma hora ainda vai acabar figurando por aqui. Por menor que o gesto possa parecer, hoje tive a dimensão do quanto o carinho inesperado pode significar para alguém, o que só acrescenta à satisfação que tive sempre que preparei festa surpresa para os outros.



Escrito por Cris às 22h43
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Santos

Outra alegria para o meu dia de aniversário: meu querido Santos goleou o São Paulo no dia 25, 4x0! Maravilha!



Escrito por Cris às 23h05
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Enfim, os trinta e três!

Ontem, aos 25 de setembro de 2004, eles chegaram: os trinta e três. Foram bem-vindos. Vieram em grande momento: quando já estou com uma empresa aberta, trabalhando com arte, cuidando da saúde, em pleno dia de Yom Kipur (e espero ter recebido de D’us uma “chatimá tová.” :-)) Abri as portas pra eles e dei-lhes um grande abraço: obrigada pela vida e por tudo o que ela tem de celebração. Obrigada pelos tempos que passei e dos quais não gosto nem de me lembrar, e que desejo que nunca se repitam, mas sem os quais não teria o pouco de serenidade e maturidade que tenho hoje. Obrigada pela vida, que, como o ar que respiro, é dom que não posso reter infinitamente dentro de mim, e um dia vai voltar para o lugar de onde veio, mas transformada. Obrigada pelo amor que me cerca e que me permite também tentar cercar de amor meu universo.

É engraçada essa história de aniversário. Cito um email que recebi e que descrevia o dia de aniversário como um “dia em que sua rotina diária pára, e dá espaço para que as pessoas possam celebrar o Dom da Vida que se manifesta na sua pessoa.” Não pensava assim, mas acho que hoje concordo.Comecei o dia de ontem agradecendo o Pai pela essência Dele que pôs em mim, e depois aos meus pais por derem dado forma a essa essência. Ao longo do dia tive gratas surpresas: telefonemas de quem não esperava, emails poéticos até de “alguém cujos olhos nunca vi” (parafraseando o autor da mensagem), mensagens de amigos queridos dos Estados Unidos, um presente certeiro, um almoço de família delicioso e uma balada ótima. É claro que, infelizmente, houve algumas ausências sentidas, não pelo fato de serem no dia do meu aniversário, mas pela falta que as pessoas fazem. Aliás, pra mim um dia de aniversário é, antes de tudo, uma ótima desculpa pra reunir aqueles que amo, e as ausências são sentidas por causa do amor, não por causa da desculpa.

Cheguei aos trinta e três também um pouco menos incapaz de fazer meus “serviços sujos”, o que foi constatado na balada de ontem quando chegou a inevitável hora de dispensar as investidas dos homens tentando deixar claro que eu havia achado o máximo ter sido paquerada e considerada interessante, mas não ia ficar com eles simplesmente porque é esse o meu feitio, não por algum problema deles. Meu amigo Edu, que muito bem me conhece, disse sabiamente uma vez que sabe que eu não encho um copo de éter quando quero tomar vinho, pois sei que ele evapora antes que eu possa saboreá-lo. É claro que eu não acho ideal a situação de estar sozinha, sem um relacionamento estável, mas não vou buscar consolo pra isso onde não o encontro. E não há problema nenhum nisso. Aliás, se há algum problema, na minha opinião, o problema é justamente a forma como os relacionamentos começam nas baladas, mas isso já é generalizado, e não o problema de algum homem em particular. Taí uma das poucas coisas dos meus tempos de Estados Unidos das quais sinto verdadeiras saudades: a balada onde homens e mulheres conversam e terminam com uma troca de telefones – ah, e que começa cedo... Outras coisas das quais sinto falta são a civilidade no trânsito, a limpeza das ruas e a pouca burocracia reinante. Mas, voltando aos relacionamentos e às baladas, estou totalmente em paz com o fato de que pude dar uma resposta totalmente fora dos padrões à pergunta: “Pra quê cê tá aqui?” feita por um cara na pista de danças. Disse simplesmente que “pra comemorar o meu aniversário com os meus amigos.” Ainda não desisti de tentar dispensar com uma certa delicadeza e elegância, pois penso que os meninos ficam numa posição muito chata, mas acho que dessa vez tive um pouco mais de firmeza no meu não, ainda que tenha tido uma ajudinha da sempre prestativa Bethania. Enfim, nada tão deprimente quanto a última vez, em que deixei todo o serviço sujo nas mãos de uma outra pessoa. Também por isso acho que a balada foi tão boa. No mais, dancei o que gosto até os joelhos gritarem, compartilhei a dança, os drinks e as conversas com pessoas queridas, esticamos para um lanche na Galeria dos Pães e depois fui feliz, ao raiar do dia, para os braços de Morfeu.

Pra encerrar com um pouco de humor vai o trecho de um dos melhores cartões de aniversário que recebi na vida. Os parênteses são meus:

“Para comemorar data tão especial pensei num namoradão bem sarado, pernas de jogador de futebol, transcendente como Inácio (de Loyola) e amável como Francisco (de Assis), valente como Ernesto (Guevara), poético como Manuel (Bandeira), musical como Eric (Clapton) e, além de tudo, com o sorriso do Gael (García Bernal). Alguém assim: ‘a perfect match for you’!”

Ah, se a amiga que escreveu isso fosse uma fada-madrinha! A danada sabe o que é bom. Se esse homem existe e ainda por cima leu essas linhas por favor me deixe um recado urgente neste blog. Meu número de anel é 11. :-)



Escrito por Cris às 23h59
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