Trinta e três


Rouquidão e aniversário do pai

Os imprevistos não param de chegar. Não se sentem constrangidos em dar o ar da graça. Achei que estava melhor do meu problema de garganta, acho que me empolguei ontem e piorei bastante. Terminei rouquíssima a noite de ontem e amanheci praticamente afônica. Foi quando decidi ir ao médico. Diagnóstico invariável: virose, claro. Provavelmente uma gripe que atacou a faringe. A contragosto resolvi tomar os remédios que ele receitou, pois a essa altura da sexta já não acho mais meus médicos homeopatas no consultório. Fora isso devo fazer um “repouso vocal” por no mínimo três dias. Traduzindo, logo neste fim de semana que eu tinha aula pra dar, dois almoços pra ir, gente interessante e querida para encontrar, vou ter que ficar de retiro forçado. Enfim, vou aproveitar como é possível: com muita internet e pelo menos um bom cinema.

O chato é que isso chegou justo no dia do aniversário do meu pai. Durante o almoço com ele eu só me comunicava por gestos ou escrevendo – patético, ainda mais se se leva em consideração que ele enxerga pouco. :) Mas não posso deixar passar este dia, em que ele completa 74 anos de uma vida belíssima, sem falar um pouco dele.

Foi com ele que tudo começou. José de Ávila foi, literalmente e de fato, o primeiro homem da minha vida. Acredito que minha essência espiritual já estava em Deus antes de eu nascer, desde toda a eternidade, mas minha essência de mulher foi tirada da substância dos meus pais. Meu corpo veio do corpo deles; meu jeito de sentir, de ver, de pensar, de me relacionar com o mundo. Não posso acreditar que isso tudo já estivesse prontinho no coração de Deus antes do meu nascimento, e que ele tenha me enviado a meus pais apenas como hospedeiros de uma pessoa já pronta. Vim deles e deles me formei. Portanto, foi da essência do homem que é José que foi criada a essência da mulher que é Cristiana. Às vezes para o mal, muitas vezes para o bem, foi ele quem influenciou por primeiro e indelevelmente o meu jeito de me relacionar com os homens.

Não poucas vezes tive medo dos outros homens que passaram pela minha vida, mas no mais das vezes mais esperei deles a mesma inteligência, elegância de espírito e fairplay que vejo no meu pai do que atitudes negativas. Vai ver por isso espero tanto dos homens: tenho um modelo do qual muitos não estão à altura. Dele aprendi a amar as artes, as viagens, os mitos, a história, as línguas; dele, dizem alguns mais maledicentes, herdei a gota de sangue azul que corre na família, algo que em mim fica acentuado pela nobreza de alma da minha mãe, sempre tão abnegada e focada nos valores do alto. Uma combinação insuperável em termos de aspirações espirituais e morais elevadas, dizem. Dele aprendi a honestidade, a firmeza de caráter, a pensar sempre “nas outras pessoas” – sempre elas, sempre preocupado com o bem estar “das outras pessoas”. Como vão ficar com o que faço? O que vão sentir, vivenciar? O que vão dizer? Depois que cresci me rebelei um pouco: “E eu? E o meu bem estar? Por que elas sempre estão na frente?” Acho que ainda falta muito para eu atingir um equilíbrio e não ver os outros sempre acima ou abaixo de mim, mas ao meu lado. Mas antes o excesso de consideração de meu pai pelos outros do que a absoluta desconsideração que vejo neste mundão pelo outro, pelo coletivo, pelo compartilhado. Definitivamente José de Ávila faz parte de outra era, foi diretamente transportado da Idade Média, com seus mosteiros repletos de gentis-homens e de cortes de reis com altos códigos de conduta e companheirismo. É a ele que dedico, de forma toda especial hoje, o meu amor e este post muito despretensioso.



Escrito por Cris às 23h53
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A revolta dos blogueiros

Com muito atraso li uma reportagem da revista Veja sobre uma “insurreição” na blogosfera que teve o poder de abalar a reputação de um dos mais respeitados jornalistas americanos, Dan Rather. Tudo bem, os blogs que mostraram sua força no episódio são blogs comunitários ligados à mais que odiosa direita americana. Assim mesmo, é reconfortante ver o poder que tem um lado da imprensa que não reza pela cartilha dos grandes meios de comunicação, dentre os quais a própria (também odiosa) Veja, que leio por absoluta falta de opção. É sempre um trabalho mental cansativo ler a revista, pois estou invariavelmente com o pé atrás em relação às posições que ela toma. Leio pra não ficar completamente por fora do que dizem ser notícia por aí, mas confesso que é muito chato ler desconfiando de tudo e discordando de quase tudo, da defesa desbragada dos transgênicos às odes à nova elite rural brasileira. O que sempre salva a leitura são os ensaios 99% das vezes inspirados de Roberto Pompeu de Toledo. De diversas maneiras já tive notícia (com o perdão do mau trocadilho), e pude experimentar pessoalmente, que é dificílimo lidar com os meios de comunicação mais poderosos. Particularmente sei o quanto atravancam o diálogo inter-religioso. Uma vez fui intérprete de um cardeal norte-americano que veio ao Brasil falar sobre sua experiência de diálogo com diversas tradições, e ele disse que “quando dois líderes religiosos importantes se apertam as mãos isso mal é noticiado, mas quando trocam socos estampam as primeiras páginas dos jornais”. Não admira, portanto, que se saiba tão pouco sobre os grandes passos que estão sendo dados no sentido da mútua compreensão, e que muito da função do cardeal citado seja apagar incêndios gerados por notícias bombásticas. Dispêndio de energia que poderia ser gasta em construir pontes e uma perda de tempo que poderia ser evitada caso os meios de comunicação fossem mais voltados para a paz e não para o sensacionalismo. Dito isso, então, aqui vai a minha opinião: sejam de direita, sejam de esquerda, blogueiros do mundo todo, uni-vos!

Observação: Estou rouca de novo. Vai ver por isso tenho escrito tanto ultimamente.



Escrito por Cris às 22h14
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Imprevistos

Eles são de enlouquecer qualquer um. Pelo menos qualquer um que tenha a ilusão – ou a neurose, mais provavelmente – de controlar o curso dos acontecimentos e principalmente o rumo da própria vida. Todos os dias, grandes ou pequenos, eles me pegam. E eis que, sem mais nem menos, dias depois de meu pai ter resolvido pintar alguns cômodos da casa, aparece um vazamento no banheiro. Do meu banheiro para o do andar de baixo e do andar de cima para o meu: problema de coluna de água do prédio. Um imprevisto dos grandes que se instala sem pedir licença e sem ter a menor delicadeza, como é da natureza de todos os imprevistos. E quanto mais se quebram paredes, mais coisas se acham, e o que parecia um problema simples que podia ser resolvido em poucos dias já está quebrando a barreira da semana. Castigo dos bons, vejo-me obrigada a dividir o banheiro com o meu pai, a única pessoa na face da terra que conheço e que consegue ser mais demorada que eu. O espaço para os mais ou menos 3.400 potinhos que eu tenho sobre bancada da pia vê-se reduzido a menos da metade e ainda tem que ser dividido com mais alguém além da minha irmã. Pobre do zelador, que mora no apartamento logo abaixo do meu, com duas crianças em casa e um banheiro detonado: a pior parte da coisa ficou com ele. Pra completar o quadro dos imprevistos e o curso próprio que o rio da minha vida resolveu tomar chega uma infecção de garganta no fim de semana prolongado. Dias de febre, tosse, rouquidão, secretária eletrônica, emails e muitos gestos pra poupar a voz e poder dar aulas. Ô, vida, que insiste em me lembrar que quem manda é ela! :)

Escrito por Cris às 21h16
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A Jornada de James a Jerusalém

Há tempos eu tinha vontade de comentar este filme israelense que vi: A Jornada de James a Jerusalém.  Acho que o vi há duas semanas e ele me tocou profundamente. Infelizmente já saiu de cartaz. Acho que foi o melhor filme israelense que vi nos últimos anos -- e olha que vi muitos (e bons) comparado ao que vê a média da população. Meus amigos judeus podem discordar do meu veredicto, pois o filme não tem nada de inovador na narrativa e aparentemente não trata dos conflitos que mais atormentam a sociedade israelense, pelo menos como eu os entendo baseado no que meus amigos judeus me dizem. Mas é uma autêntica jornada do herói, e vai ver por isso tenha me tocado tanto. Trata da perda da inocência infantil, um processo doloroso de se assistir, mas do ganho de algo mais profundo, talvez: a escolha consciente daquilo em que se acredita. James chega a Israel com uma ingenuidade de dar dó. Não consegue se manter fiel a seus princípios originais e passa, sem perceber, a agir exatamente como aqueles que o cercam e que ele a princípio condenava. Tudo acontece quase que sorrateiramente, sem que ele se aperceba de que está se tornando odioso. Até sua belíssima tomada de consciência, em que ele abraça os valores que havia trazido consigo mas que antes pareciam somente herdados de forma semi-consciente, e agora são aquilo que ele pode escolher como certo depois de ter provado o gosto do errado. Uma belíssima transposição, a meu ver, da narrativa do pecado original e da queda da humanidade para um contexto real e atual. Enfim, um filme delicado que vale a pena assistir se sair em vídeo e DVD.

Escrito por Cris às 21h17
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"Deve ter alamedas verdes a cidade dos meus amores"

Pra quem não reconhece a citação, vem de um dos grandes sucessos infantis da minha geração: o disco dos Saltimbancos do Chico Buarque. A canção se chama "A Cidade Ideal" e nela cada um dos animais protagonistas descreve sua cidade ideal. Pensei nisso ao voltar da balada na sexta-feira à noite, quando a minha mente não tinha mais o que fazer durante o banho a não ser pensar nas coisas boas e ruins da noitada. Fui com três amigos à Trash 80s e me diverti muito. Mas algumas coisas ou estão piores de fato ou começaram a me incomodar mais. No topo da lista, pra variar, a abordagem masculina: o que faz uma criatura pensar que dar uma soprada no meu pescoço ("Só pra te refrescar um pouquinho", pois estava muito quente e eu segurava os cabelos acima da nuca enquanto dançava) é um jeito legal de chegar em alguém? Em segundo lugar, relacionado também a isso, a idéia generalizada de que quem está na balada está lá necessariamente pra "caçar" alguém, o que no meu caso não se aplica em absoluto. Do jeito que funcionam as coisas, conhecer alguém legal numa balada é algo tão improvável quanto achar programa bom na TV aberta numa tarde de domingo. É claro que eu ia adorar se acontecesse e não estou de modo algum fechada, mas não conto com isso. Se vier, será um golpe de sorte, MUITA sorte. Já admiti que sou uma "esquisitona" para os padrões brasileiros de caça em balada e vivo muito bem com isso. Melhor que isso só se todos soubessem que sou assim e me deixassem em paz. O excesso de muvuca lá na Trash também chegou a um nível complicado de lidar. De resto, a festa melhorou: a decoração e a música estavam muito boas, e eles agora colocaram também um telão passando clipes, alguns dos mais hilários.

Com tudo isso em mente, resolvi elaborar as dicas da "Balada ideal da Cristiana":

- Começa cedo, por volta das 21:00, e já estará fervendo às 22:00. Não tem hora pra acabar, mas quem chegar cedo vai se divertir;

-A pista tem lugar suficiente pra preservar o espaço vital de cada um, e um extrazinho para algumas coreografias mais inusitadas;

-O techno tem limite de duração de 15 minutos. Rola de preferência anos 80 e 90;

-NÃO SE FUMA NA PISTA;

-O lugar necessariamente tem um mezzanino ou uma sala à parte onde se pode conversar em tom normal de voz. Além desse espaço separado haveria tb um fumódromo em respeito à diversidade de opções das pessoas. Mas no que dependesse de mim estaria sempre vazio;

-A água seria de graça, e nenhuma bebida passaria de 5 reais. Hummm, melhor não: podia criar uma overdose de bêbados... Tudo bem: água de graça, bebida inócua barata e alcoólicas a um preço razoável;

-Todos os homens receberiam, na entrada, uma pulseira com sensor automático de peitos e bundas, e cada vez que estes fossem tocados os caras levariam um choque. Isso é bom porque evitaria também uns amassos ousados demais. Neste ponto estou com o ditado americano: "get a room";

-A identificação com o puritanismo americano para por aí: os beijos estão liberados, aliás, liberadíssimos! E, dando vazão à fantasia romântica pura e simples, quando fossem carregados de carinho fariam os dois "beijantes" soltarem um perfume gostoso ao redor de si. Em beijos com amor o perfume seria melhor ainda, e dados por casais que já estão juntos há tempos e se dedicam sinceramente à árdua tarefa de preservar o romantismo no relacionamento duraria algumas semanas;

-Ainda na linha da fantasia total, lembro de um filme muito terno que vi chamado Um Dia,  um  Gato e aproveito uma idéia do filme de forma adaptada: os homens que olhassem pra alguém com olhar de cafajeste iriam mudando de cor e ficariam gradualmente amarelos. Quanto mais olhares, mais amarelos ficariam. Igualmente as mulheres que apelassem para a sensualidade vazia iriam ficando incolores. :)

Bom, tirando a parte da fantasia, quem sabe eu descubro com algum "feedback" se a minha balada ideal tb funcionaria pra mais alguém. Se funcionar pode até rolar uma festa um dia, quem sabe?



Escrito por Cris às 18h43
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