Silêncio! (e filmes)
Dias absolutamente curiosos de silêncio. Me fizeram pensar naqueles que têm esta limitação de não poder usar a voz de forma permanente e me solidarizar com eles. Um fim de semana de muito chá de agrião com gengibre, salada de agrião, limão/ laranja/ maçã, que são adstringentes, e formas cômicas de comunicação. Em casa, com a família, valeu de tudo: palmas pra chamar as pessoas, gestos, leitura de lábios e recadinhos escritos. Ontem pude contar quantas vezes abri a boca pra falar ao telefone, e rápido: duas. Hoje só falei, propriamente, com alguém, uma única vez.
A frustração maior foi ir ver o magnífico O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, com um amigo e não poder comentar o filme. Um filme tão rico em metáforas, tão profundo, que leva a questionamentos tão transcendentais... Só que meu bloquinho de notas não ia dar conta do recado (com o perdão do trocadilho), e ia ser demorado demais. Andamos do cine HSBC Belas Artes até minha casa e tomamos um café por aqui. Quando vi, depois do cinema ainda conseguimos sustentar mais de 2 horas de conversa, um assombro. Só por curiosidade, resolvi ver, depois que ele tinha ido embora, quantas folhas do bloquinho eu havia usado: 30, frente e verso. Tudo bem que as páginas eram do tamanho de uma caixa de fósforos, mas foi papel pra caramba... O mais hilário é que, neste estado, a gente faz a outra pessoa falar por dois, pra confirmar que entendeu os gestos ou a expressão facial: “Se eu me importo de ir andando?” “Se eu estou com fome?” “Vc quer saber quem é o fulano?” E, claro, se o doce Nando fosse tímido demais a situação teria sido insustentável. Na verdade, foi um tanto estressante – acho que para ambos – mas visto que ele mora em Campinas e vai demorar a voltar tivemos que nos virar. Enfim, valeu a pena.
Por falar em filmes, ontem vi um “rabinho” na televisão de um filme que, apesar de ruim, me deixou marcas profundas. Chama-se A História de Nós Dois, com Michelle Pfeiffer e Bruce Willis. Gosto muito da Michelle, mas neste filme ela está caricata. Aliás, todos os atores estão. A edição beira um videoclipe, mas não casa bem com o estilo do filme. O que salva é a trilha sonora soberba de Eric Clapton, ótima como sempre. O roteiro tem muitas falhas, mas toca em feridas pelas quais acho que todos os casais já passaram. Coincidentemente, nas duas vezes que vi o filme anteriormente eu estava em crise com meu ex-marido. Vai ver por isso ele mexe comigo. Na primeira vez ainda éramos casados e morávamos nos EUA. Fui ver o filme com um amigo, e ao chegar em casa e me deitar na cama ao lado do Randy, que já dormia, eu comecei a chorar baixinho, meio sem saber porquê, mas sentindo que o filme havia sido, em muitos pontos, um retrato da nossa relação tão curta. Depois já estávamos separados e ele passava uma temporada aqui no Brasil, e vimos o vídeo juntos. Foi a sensação de olhar na tela vários assuntos sobre os quais tínhamos mantido silêncio, sobre os quais eu ainda queria conversar mas nunca tinha tido a oportunidade. Enfim, uma história de palavras não ditas ou ditas e incompreendidas, de desentendimentos levados para baixo do tapete e que eu achava que nunca me deixariam em paz se não fossem conversados à exaustão. Até que um dia, depois de meses separada, de muita terapia, de oração suplicante e sofrida, de questionamentos, de remoer fatos e sentimentos, a gente acorda com a sensação de que aquilo está superado. Lembro da sensação do primeiro dia em que me dei conta de que só antes de dormir me lembrava do Randy pela primeira vez no dia, ao invés do movimento habitual de ele ser a primeira lembrança ao acordar, e o mais insistente fantasma a me acompanhar ao longo de longas e duríssimas horas de um dia de atividade. Era uma sensação tão suave quanto consoladora. A princípio ela dura pouco: voltam as lembranças fantasmagóricas e os sonhos insistentes, a gente se assusta achando que não tem cura, mas depois ela vai ficando gradualmente real até nos dar a certeza – e o prazer indizível – de ver que já estamos curados, e que nenhuma palavra era mesmo necessária para resolver a situação. Silêncio e coração em paz.
Escrito por Cris às 23h17
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