Cidades e feriado
Com muito atraso li hoje numa Veja um ensaio inspiradíssimo e muito lúcido do Roberto Pompeu de Toledo sobre os carros e a cidade, em que ele falava das medidas tomadas pelo prefeito de Paris para diminuir a circulação de carros particulares por lá. Me lembrou a ocasião em que eu estive lá no ano passado, em que tive a sorte de estar na França no dia nacional “sem carro”. É uma iniciativa fantástica: emprestam-se bicicletas, algumas cobertas para os dias de chuva e com lugares para se transportar crianças; há instrutores dando aula de patinação, trabalho de conscientização popular e muita gente circulando a pé. A única coisa que me deixou triste naquele dia foi pensar que antes de no mínimo 50 anos vai ser impossível tomar iniciativas desse tipo por aqui. Lá o transporte público é fenomenal tanto em extensão e alcance quanto em qualidade; as calçadas são amplas e lisas, existem ciclovias e o trânsito é civilizado. Tudo coisa que por aqui só faz diminuir. Mas nem tudo está perdido.
Deixando de vôos mais altos e voltando pra esta terra de Santa Cruz aqui, vou lembrar da viagem que fiz no feriado a Holambra e região. Foi o único feriado neste ano em que me aventurei a alguma região que não Atibaia. Que tristeza... Comecei o ano sonhando em viajar a cada três meses e conhecer pelo menos um lugar diferente mais distante. Conheci só Holambra e mal pisei na praia neste 2004. Deste ponto de vista foi um ano ruim: minha empresa demorou nove meses para abrir, minha vida financeira ficou um caos e tudo só dá mostras de se resolver em 2005. Paciência. Espero que 2005 de fato seja um ano melhor sob este ponto de vista, e também para a minha vida afetiva, mas isso fica pra outro post.
O bom dessa viagem a Holambra é que, depois de mais de 1 ano, viajei novamente com meu pai. Além de nós dois foram também a minha irmã e dois alunos do meu pai. Foi um grupo muito gostoso: química boa, gente inteligente, um amplo espectro de idades. A Cynthia, do alto dos seus 19 anos, dava uma injeção de vitalidade, energia e renovação no resto do grupo. O Fabiano é o bom-senso, a calma e o altruísmo em pessoa. Com a Fabíola, minha irmã, tenho uma relação quase simbiótica. E todos nós, incluindo meu pai, temos muito bom humor, o que nos proporcionou gostosas risadas e momentos muito relaxantes. E a região campineira me reservou agradáveis surpresas.
As ruas de todas as pequenas cidades em que estivemos são muito arborizadas e a variedade da vegetação é grande. Graças a Deus, lá ninguém teve a brilhante idéia de plantar palmeiras não-nativas da terra brasilis e muito menos típicas de São Paulo, supostamente vindas -- segundo alguns que trabalham na prefeitura -- da plantação de um certo Luiz Favre, no meio de avenidas às quais não dão sombra nenhuma. Há vegetação nativa e rica tanto nas ruas quanto nos muitos parques e praças que existem, para minha surpresa, por toda parte. Também, artigo raro no Brasil hoje em dia, há calçadas razoáveis num bom número de ruas. E, mais importante, um estilo de vida mais em contato com a natureza, menos pressionado pela pressa e pelas ilusões que São Paulo oferece. Parece que a felicidade verdadeira está mais ao alcance dos habitantes de lá, enquanto a falsa é abundantemente oferecida nas ruas desta Sampa que amo e odeio ao mesmo tempo. Foi uma viagem que deu novo alento aos meus planos de ter uma vida mais simples num lugar menor, me lembrou de rever de novo as minhas prioridades e deu um descanso mental em contraposição ao excesso de estímulo da metrópole. Sinto no ar que muito mais reflexão está por vir.
Escrito por Cris às 22h22
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