"Meu país" e padre Tom
É difícil regressar a esta cidade de tempo londrino e voltar à roda-viva depois de um fim de semana no “meu país”, o mosteiro de São Bento em Vinhedo. Ainda mais quando londrino por aqui é só o tempo: nada dos belos jardins, do metrô extenso, do excelente transporte público, do rio que corta a cidade tratado com dignidade, dos parques, da bela arquitetura e dos pubs. Nada de andar pela cidade depois da meia-noite sem medo de pedir informação ou de pegar ônibus num ponto no meio de uma rua deserta. Está sendo uma semana difícil por conta justamente disso, deste tempinho de merda que marca o começo oficial do verão (piada) e da loucura das tarefas que se impõem. Mas pelo menos tive uma deliciosa surpresa no domingo à noite ao desembarcar do metrô no meio de uma Avenida Paulista interditada por conta da vitória do Santos. Meu peixe fechou a avenida em plena São Paulo! Entrei em casa pulando e cantando o hino do Santos entusiasmada enquanto abraçava meu pai. Foi uma tarde de agonia, sem ter a quem perguntar no mosteiro sobre o resultado do jogo. :)
De todas as minhas idas sempre especiais àquele lugar abençoado esta foi particularmente feliz. Foi, como sempre, meu espaço pra me dar o direito de dormir dez horas seguidas. Pra comer feijão com o mesmo gosto daquele que a minha falecida avó fazia em Atibaia. Pra andar no meio da natureza, me deixando encantar pelas cores, formas e cheiros que ela apresenta, sem rumo nem pressa de chegar a lugar nenhum. Pra ouvir e cantar salmos em gregoriano. Pra ler, ler muito. Pra rezar e refletir sobre tudo o que se passa no meu interior, perguntar e ouvir respostas. Sobretudo, um espaço para estar em silêncio, que tanto me faz falta. Mas o presente de natal que o menino Jesus me deu – suprema subversão – foi ter encontrado lá, inesperadamente, o mesmo monge americano com quem conversei quase dois anos atrás e cujas palavras eu não mais esqueci. O mais surpreendente foi ele, depois de todo esse tempo, não ter esquecido de mim, uma das centenas, ou talvez milhares, sem nenhum exagero, de pessoas para quem ele deu aconselhamento nesses últimos dois anos. Padre Thomas Acklin lembrava meu nome, o que eu fazia e o que tinha conversado com ele em janeiro de 2002. Meu queixo caiu. Confirmou o que haviam me dito antes de eu conhecê-lo sobre ele ser uma pessoa muito fora de série.
Pois bem, esse homem havia chegado poucos dias antes a Vinhedo para ficar aqui até o dia 6 de janeiro. Pedi um tempinho pra ele e abri meu coração sobre as minhas dúvidas profissionais. Ele já se lembrava que eu trabalhava como professora de inglês e que, na época, fazia curso de tradução e interpretação. Dei a ele, então as novas já não tão novas: eu havia me formado “com louvor” pela Associação Alumni em julho de 2002, e de lá pra cá tenho feito trabalhos bastante elogiados, alguns dos quais considerados difíceis. Em resumo, sem nenhuma falsa modéstia, levo jeito para a coisa, e acho que trabalhar com línguas estrangeiras é um talento natural. O grande problema está na minha paixão de infância, na carreira de atriz que interrompi em 1992 e resolvi retomar muito timidamente no ano passado, quando me matriculei num curso para atores de cinema. Não tenho, com relação ao meu trabalho de atriz, a confiança e a facilidade que tenho para traduzir e interpretar, e me questiono se não estou correndo atrás de uma miragem ao querer investir também nessa frente. Será que eu não devia aceitar que não nasci pra isso, que nasci pra ser tradutora e intérprete e sossegar? “Não”, foi a resposta. “No fim você vai ver que tudo vai se encaixar. Deus vai colocar tudo junto, quem sabe de uma maneira que você não espera.” Foi uma resposta bastante diferente da que eu esperava. Ele acha que eu preciso me dar a chance de trabalhar como atriz e enfrentar os monstros que criei com relação a esse meu trabalho. Na pior das hipóteses, meus ganhos pessoais de superação vão fazer de mim uma pessoa infinitamente melhor. Ou então, mais provável segundo ele, Deus vai dar um jeito de juntar tudo e me fazer frutificar de uma maneira em que eu use todos os meus talentos. Em resumo, devo dar a cara pra bater e confiar tanto em mim quanto em Deus. Quem confia nele não tem medo de câmera, mesmo quando ela me coloca em primeiro plano e mostra o interior que eu tenho medo de revelar. É mais desconfortável que servir de tradutora ou intérprete para a expressão dos outros, mas vai me fazer crescer imensamente em amor, em fé e em coragem.
Tudo tão simples e tão temperado de sabedoria que eu tive vontade, depois, de pedir orientação total para a minha vida afetiva, mas aí já era. :) Taí uma coisa tão complicada que acho que nem o padre Tomas ia ter a orientação segura. Nesse caso precisa o próprio Deus dar um empurrãozinho, que do jeito que está não dá pra ficar. Assunto para um post futuro.
Escrito por Cris às 22h52
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