Férias, samba, bebedeira e considerações sobre intimidade
Tanta coisa aconteceu nestes últimos dias sobre as quais eu gostaria de ter escrito... No fim não tive tempo nem de fazer um balanço de fim de ano antes das minhas férias, acabei sequer falando das férias em si, e já estou de volta há 15 dias. Sei que gostei de rever Vitória 10 anos depois de ter estado lá pela primeira vez. É uma cidade urbanisticamente agradável, de natureza bonita e topografia privilegiada. Na cidade de Vitória em si o trânsito é mais civilizado do que em São Paulo e a arquitetura mais interessante. Mas acho que o melhor que a cidade tem a oferecer aos habitantes é a praia e os parques, onde se pode caminhar, conversar e contemplar a natureza num fim de tarde ou de manhã cedinho. Coisas que fazem muita falta em São Paulo.
Também foi especial a experiência de conviver com alguém de fora da minha família por 10 dias ininterruptos. Esses períodos, pra mim, são como testes de uma amizade, e acho que a minha com a Bethania passou bem por ele. É uma experiência no mínimo curiosa a construção da intimidade em todos os níveis, mas especialmente naquele em que menos prestamos atenção: a intimidade da amizade. Envolve passar por momentos de tédio, incertezas com relação ao que o outro pensa e sente, um outro olhar para as nossas próprias atitudes. Sei que muitos relacionamentos, sejam eles de família, amigos ou casais, não saem ilesos do processo, e alguns não sobrevivem. Fico feliz em ver que esse não foi, aparentemente, o meu caso.
Ao voltar a São Passo resolvi pôr em prática uma resolução antiga: ir a um ensaio de escola de samba. “Uma coisa que se deve fazer pelo menos uma vez na vida, pra poder dizer que se fez”, eu pensava. Sendo brasileira eu me sentia na obrigação de fazer isso pelo menos uma vez, do contrário seria como nascer no Rio de Janeiro e nunca ir ao Corcovado ou ao Pão de Açúcar. Afinal, os pontos turísticos na maioria das vezes são turísticos justamente porque constituem o que um lugar pode oferecer de mais interessante, por isso acho que as pessoas locais devem ao menos visitá-los uma vez na vida – o que muitos não fazem. Era essa a minha idéia com relação a ensaios de escola de samba até presenciá-los. Não esperava que fosse gostar mesmo, e muito, da experiência. Nunca desfilei em escola (o que também pretendo fazer um dia), mas se bobear o ensaio é melhor do que o desfile. Foi fascinante ouvir as diferentes batidas da bateria, observar o comando do mestre e a atenção dos instrumentistas, ver de perto as delicadas evoluções do mestre-sala e da porta-bandeira, babar ao ver a beleza da dança das passistas. A adrenalina foi a mil quando ouvi aquele som, e eu espantei todos os meus fantasmas. Também tive um reencontro delicioso com a minha brasilidade. Gostei tanto que repeti a dose no sábado passado.
A única coisa ruim disso tudo foi ter ficado bêbada com UMA caipirinha no ensaio. (!!!!!!!) Uma caipirinha, por favor! Tudo bem que o copo era grande e tinha pouco gelo, mas foi vergonhoso assim mesmo. Foi praticamente a primeira bebedeira da minha vida, e me fez pensar em como é possível que certas pessoas considerem isso uma diversão. A sensação é simplesmente péssima: eu não dava quatro passos em linha reta e fiquei com uns belos hematomas nas pernas; o estômago estava horrível, a cabeça doía e tudo girava. Eu que já não sou lá muito graciosa no gestual e dou risada à toa ria mais ainda e derrubava quase tudo o que me caía nas mãos. Minha irmã disse que meu bafo de pinga estava terrível. Pior de tudo foi quando deitei para dormir, fechei os olhos e senti tudo girar mais ainda. A única coisa que não aconteceu foi perder a noção do que eu dizia: acho que meu superego é muito forte e nunca houve meio de dar um balão na minha consciência, nem com sedativo, nem com caipirinha. :)
No dia seguinte o aparente mistério de “como-é-possível-ficar-bêbada-com-uma-única-caipirinha” foi resolvido pelo meu querido Edu, amigo que é médico. Pra começo de conversa, minha constituição (magra com muito pouca gordura corporal) deixa a minha resistência ao álcool naturalmente muito baixa. “Mas uma caipirinha só, Edu? Isso nunca aconteceu!” Foi quando nos demos conta de que eu estava completamente desidratada. Na verdade eu suei tanto que tive vontade de incinerar o vestido que usava assim que cheguei em casa. Pra completar, os alimentos que eu havia comido antes de ir ao ensaio não eram gordurosos o suficiente para amenizar os efeitos do álcool. Espero ter aprendido: beber e ficar alegre é ótimo, mas se eu não quiser mais passar mal tenho que beber muito líquido e comer gordura antes de beber. Quanto a mudar minha composição corporal, isso não pretendo fazer mesmo. Tá muito bom assim como está. :)
Escrito por Cris às 21h44
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