Trinta e três


O medo do ridículo

Cruz e ressurreição de novo, juntas como sempre. Com certeza são parte da ebulição interior e das mudanças não tão vistosas, mas ainda assim mudanças, que estão acontecendo na minha vida exterior. Estou falando da última aula de atuação em cinema e das limitações que tive que enfrentar lá ontem. Enfrentar, aliás, acho que não é a palavra certa: melhor falar das limitações com que tive que me deparar, mas que não consegui enfrentar, pelo menos por enquanto. A aula de ontem foi das mais significativas do curso, começando pelo que não consegui fazer e terminando pelo que não consegui evitar.

No começo da aula o Guilherme mandou a gente fazer uma roda e caminhar, um a um, até o centro da roda, expressando com o corpo um sentimento que ele indicasse. Resolvi ser a primeira de cada rodada porque depois que os colegas vão as coisas se complicam: eles usam todas as nossas idéias e a criatividade, que é limitada, acaba. :) Já é naturalmente difícil pra mim deixar o corpo mandar, ao invés da cabeça. Mas enquanto os sentimentos eram alegria, tristeza e saudade ainda deu pra fazer alguma coisa. Quando ele falou em desejo eu travei. Mesmo. Não consegui fazer nenhum movimento. Não adiantou toda a insistência do Guilherme nem o meu alto grau de exigência comigo mesma que determina que, se eu quero mesmo ser atriz, tenho que fazer o que o diretor mandar. A frustração, então, virou um veneno que contaminou o resto da aula, em que preferi não me arriscar em nenhuma cena que fiz. Fiquei no seguro, não ousei, enquanto via, com um misto de alegria e vergonha de mim mesma, cenas lindas feitas pelos meus colegas. Alguns deles estão tendo uma evolução impressionante. No final, com essa mistura de emoções à flor da pele, quando o exercício era simplesmente abraçar cada um dos colegas, aí sim a minha razão não controlou meus sentimentos e eu não consegui segurar o choro. Um choro sentido, sem muita forma nem descrição, com um porquê muito mal explicado, igual àquele que brota agora. Se tela de computador fosse papel este post estaria todo molhado. É muito dolorido constatar o meu medo do ridículo e o quanto ele me paralisa. Não consigo me ver como alguém capaz de expressar desejo e aí viro minha própria carrasca, assistindo minhas próprias cenas de fora e dizendo: está ridículo, está péssimo, está constrangedor. Passei por isso quando tive que fazer um monólogo de uma prostituta, que de fato não ficou bom. Passei por isso também aos vinte anos quando estava na escola de teatro e tive que fazer outra prostituta. A cena, dramática, ficou risível, e não é a carrasca interior que está dizendo isso: a platéia riu, mesmo. Bom, e daí? Não tenho mais vinte anos, não tenho aquela cara, não sou a mesma mulher, e mesmo que seja risível de novo isso não devia me impedir de continuar ensaiando até ficar pelo menos crível. Muito bonito na teoria. Na prática, estou tendo que me defrontar com limitações muito doloridas. Só espero que, com a ajuda do Mestre Jesus, essa cruz também vire ressurreição. Mas por enquanto estou pregada nela e sofrendo as dores da agonia.



Escrito por Cris às 23h18
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A semana: de Guilhermoso a Tom Maior (passando por Randy e LP)

Os posts deste blog estão ficando muito espaçados. Isso não é bom, em primeiro lugar porque acabam ficando enormes e englobando muitos assuntos. Além disso perdem o frescor do momento – se bem que ganham em reflexão. Mas parte justamente do que eu vou falar é minha necessidade de refletir menos e sentir mais.

Comecemos por um personagem: Guilherme, meu professor de atuação em cinema, também conhecido como Guilhermoso Wild Chicken. O apelido cai muito bem nele, ainda mais que às vezes eu tenho sérias dúvidas de que o Guilherme realmente exista, mas não duvido que ele seja um personagem de verdade. :) (Alguém conseguiu entender isso?) E um personagem que de uns tempos pra cá tem tido um papel decisivo na minha vida, se bem que com uma discrição que não condiz com o espalhafato do nome dele. O mais extraordinário disso tudo é que ele não tem a menor idéia da importância que tem pra mim. Mas o fato é que, no decorrer dos últimos meses, vi coisas lindas que o Guilherme fez, das quais uma que se destacou foi praticamente tirar leite de pedra com uma das atrizes. Eu, que vi o processo de preparação da cena, achei que jamais seria possível tirar da atriz em questão uma cena razoavelmente boa, mas ele conseguiu que ela fizesse uma cena muito bonita, e em tempo recorde. Acho que ele tem conseguido bons resultados comigo também, mas fica difícil avaliar não podendo olhar de fora. O que ele de fato conseguiu foi me levar a um belíssimo processo interior de olhar para meu lado, digamos, violento.

Tudo começou quando ele me dirigiu numa cena em que eu tinha que pegar um namorado (ou marido) olhando descaradamente para outra pessoa, acusá-lo de ter culpa no cartório e fazer um escândalo de ciúmes. Foi um dia de cenas ótimas na sala inteira e, ao final, como sempre, ele fez a avaliação das cenas. O que disse de mim foi que eu apresentei uma grande evolução do começo do curso pra cá, mas que ainda era muito difícil eu trabalhar com a energia yang, com cenas de raiva ou de emoções consideradas negativas. Dos três palavrões que eu falei em cena, inclusive, ele diz que o primeiro nem saiu direito, mas que eu fui crescendo no decorrer da cena. E apontou coisas que eu posso tranqüilamente verificar não só nas minhas cenas, mas na vida, como a minha tendência natural de ser maternal, doce e aglutinadora, e a dificuldade com as chamadas “energias negativas”. Pedi a ele umas dicas pra lidar com isso na vida real também, ainda mais aproveitando que além de diretor ele é psicólogo. E o que ele me disse me remeteu a outra pessoa encantadora que também tem ocupado um lugar cada vez mais importante na minha vida: Luiz Paulo, vulgo LP.

Apresentando LP: estudante de audiovisuais na USP, católico, amigo do Lucas. Obviamente eu precisaria de muito mais palavras para dar uma descrição razoável do Luiz Paulo, mas vou resumir indo ao ponto crucial que faz dele uma pessoa fascinante: até hoje nunca conheci ninguém católico que tenha a visão totalmente peculiar que ele tem da violência. É, sem sombra de dúvida, dos católicos que eu conheço, a pessoa mais bem resolvida nesse aspecto. Ele tem toda uma teoria de que a violência é altamente cristã (logicamente dependendo de uma série de fatores). Não dá para apresentar a teoria toda aqui, inclusive porque ainda não estou totalmente familiarizada com ela. :) Mas no que toca a mim, o ponto de vista do LP começou a despertar um novo olhar que eu passei a ter de uma energia brutal que guardo desde a infância e que fazia meu pai me descrever como “uma leoa” em algumas das minhas atitudes de criança; energia essa que foi muitíssimo mal trabalhada no decorrer dos anos e que hoje em dia é freqüentemente usada de forma destrutiva (auto-destrutiva, principalmente). Pra completar, o Luiz Paulo teve a gentileza de me deixar assistir a filmagem que ele ia dirigir da última cena do curta de conclusão de curso dele, dando vazão à minha resolução de ano-novo de virar gente grande e começar a construir a minha carreira de atriz embrionária. Passei doze horas em função dessa filmagem na noite de sexta pra sábado e cheguei em casa estourada, mas feliz.

No sábado, depois de uma semana que incluiu até um telefonema para o ex-marido nos Estados Unidos, com o interior em franca ebulição em função de tudo o que vem acontecendo na minha vida interior e exteriormente, eu estava um caco. Como de praxe nos dias em que estou com muito sono e emocionalmente desgastada, chorei ao telefone com mais de um amigo. Pra soltar as bruxas resolvi ir ao ensaio da Tom Maior, pois por mais que eu estivesse cansada descobri que a energia de uma boa bateria espanta muitos fantasmas. Uma das melhores partes, porém, foi descobrir que um fantasma deixou de existir por completo: o do meu relacionamento com o Randy, meu ex-marido americano. Neste último telefonema ele passou da civilidade que havíamos conquistado há algum tempo para algo realmente carinhoso e pessoal: um sincero pedido de desculpas por tudo o que me fez passar, pela visão que ele tinha anteriormente de relação como conflito e por não ter sabido me tratar de outra forma que não a conflituosa. Com uma enorme alegria eu me dei conta de que aquilo, mesmo muito antes desse pedido de desculpas, não me afetava mais, e que eu só me lembrava dos momentos bons que havia tido com ele. Falei isso pra ele com total liberdade, e fiquei muito feliz ao achar que ele finalmente se encontrou, tanto na vida pessoal e afetiva como na profissional. Que Deus o abençoe. E antes do ensaio da bateria ainda fiz um “ensaio” pessoal: aproveitando que estava sozinha em casa apaguei todas as luzes da sala, que elegi meu santuário por alguns minutos, soltei mais uma vez um Coldplay em bom volume para encher o ambiente e dancei. Dancei sem me preocupar com a falta de beleza dos movimentos, com a sensualidade que pudesse aflorar, com a falta de ritmo, só tentando deixar a energia yang vir à flor da pele e transbordar. Vou tentar assumir, a partir de agora, aquela força magistralmente descrita por Manuel Bandeira no poema “Ariesphinx”:

“A força da doçura

A força da poesia

A força da música

A força das mulheres e das crianças

A força de Jesus, o cordeiro de Deus.”



Escrito por Cris às 23h02
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