Revendo conceitos
É uma pena que a publicidade na maioria das vezes use a criatividade das pessoas para motivos torpes, mas aquele bordão “Está na hora de você rever os seus conceitos” é realmente muito bom. É o que mais tenho feito nos últimos dias: rever conceitos em todas as áreas.
Começou no fim de semana passado, no retiro em Campos do Jordão, em que comecei a ler o primeiro rascunho do livro escrito pelo padre Thomas sobre a paixão de Cristo. Não sobre a paixão como sofrimento, infelizmente já batida, mas a paixão do ser e estar apaixonado, absolutamente necessária à vida espiritual, sem a qual a religião não passa de um amontoado de preceitos frios. O livro está abalando meus alicerces, e me fazendo repensar – ou será que “re-sentir” seria uma palavra melhor? – a minha vida espiritual de alto a baixo, o que em outras palavras quer dizer ter um novo olhar sobre absolutamente tudo.
Depois, em várias conversas com amigos, por alguma razão que vai além da razão, surgiu de muitas maneiras e em diversos níveis a questão de como as coisas são expressas pelas pessoas com uma intenção e lidas pelas outras de uma forma diferente. Cada vez mais vai ficando claro pra mim que não há nada escrito na pedra em termos de comunicação: as “indiretas”, “pistas” e “indícios” muitas vezes não existem. Lembrei de uma ocasião em que conheci um ex-namorado. Estávamos num bar, conversando num grande grupo, e quando me despedi dei o meu cartão de visitas a todas as pessoas da mesa que eu havia conhecido naquela noite -- homens e mulheres. Só que ele não viu isso; viu apenas que eu tinha entregue o cartão pra ele, o que o fez achar que eu estava interessada nele e me telefonar. :) O final da história eu já entreguei no começo: depois de um tempo começamos a namorar, mas na noite em que nos conhecemos eu realmente não fiquei interessada nele. Comecei a me interessar quando vi que ele estava interessado, e assim tudo terminou em samba sem ninguém saber direito como e por quê começou.
A experiência mais contundente a respeito de revisão de conceitos, no entanto, aconteceu ontem na aula de atuação (pra variar). A cena era terrível: um desencontro amoroso em que o homem se declarava apaixonadamente para uma mulher que ele sabia que não estava na dele. Ela, por sua vez, deveria acolhê-lo, mas naquele clima de “eu gosto muito de você, mas como amigo”. Éramos apenas duas mulheres no grupo, por isso tive que repetir a cena com três colegas diferentes. Depois foi minha vez de me declarar sabendo que ele não gostava de mim da maneira como eu dele, mas na última tentativa desesperada de tentar mudar a situação. Não sei se por ser uma situação muito próxima de algo que estou vivendo no momento na “vida real”, mas todas as passagens foram extremamente sofridas, tanto pra dar quanto pra levar o fora. Só que, apesar de eu estar extremamente mexida emocionalmente, de acordo com o diretor eu comecei bem, mas levei a cena muito para o racional nos últimos takes. Terminei a aula emocionalmente abalada, com dor no peito e muito frustrada por não conseguir extravasar para quem assistia a emoção que eu senti quando estava em cena. Hoje de manhã, além da dor no peito que ficou de resquício das cenas de ontem, eu ainda estava com o abdome detonado por causa da primeira aula de Pilates depois de um período de férias. Acabei extravasando tudo numa crise de choro compulsivo que começou enquanto rezava o Salmo 34 e se prolongou por boa parte da manhã, e estou considerando ir fazer uma sessão emergencial de terapia, mesmo depois de meses parada. :) A merda é não conseguir deixar isso tudo vir à tona na hora certa e transformar tudo em arte.
Mas deixemos estar que não há cruz sem ressurreição. :) Em mais ou menos quarenta dias chega a páscoa, e um dia as artes cênicas ainda vão ver a Cris de coração escancarado sem medo, cheia daquela mesma paixão capaz de levar o Mestre ao limite de se tornar totalmente vulnerável só pra fazer parte da nossa humanidade. O coração Dele, doado na eucaristia da qual tantas vezes comunguei, ainda há de fazer a minha transformação. Creio de verdade que já está fazendo, com a delicadeza que é característica Dele, o grande amor da minha vida, que sabe o quanto sou frágil. E assim, depois de um post gostosamente inútil como o de ontem, encerro a minha semana com uma reflexão pesada, misturando muita dor com a alegria de saber que ela não é vã, como é característico dos partos e daquele processo incessantemente comezinho e cotidiano que chamamos de crescimento.
Escrito por Cris às 23h33
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