Mais cinema. Muito trabalho. Mais nudez (em mais de um sentido).
Na segunda feira da semana passada exibiram o material bruto do filme que fiz. Estava pronta pra chorar de emoção ao ver a minha carona enorme na tela, em close fechado, e ter pela primeira vez a sensação de me assistir no cinema quando começaram a entrar várias versões de texto urgentes para eu fazer em inglês. Passei o feriado de Corpus Christi trabalhando e achei que ia dar tempo de fazer tudo até segunda à tarde, mas algumas palavras como “cordeiro-mamão”, nomes de frutas como “curuba”, “jaca”, “jenipapo” e “mangostão”, e modalidades de futebol como o futebol médio e o futebol deslizante me obrigaram a varar a madrugada de domingo e a passar a segunda inteira em pesquisa de vocabulário. Não bastasse eu ter que descobrir o que são essas coisas em português, tinha que achar o termo equivalente em inglês, o que nem sempre foi possível devido ao prazo apertado que eu tinha pra entregar o trabalho. Tive que apelar para o itálico e deixar alguns termos em português. Depois, de terça a quinta-feira passadas a maratona se repetiu, com textos entrando para ser entregues no dia seguinte ou no mesmo dia. Foi uma semana em que a atriz teve que ceder lugar quase que integralmente à tradutora, que por sua vez ficou bem estressada. Só tive tempo de ir às aulas de segunda e quarta, e ainda assim chegando atrasada.
Nas aulas de segunda estamos num processo interessantíssimo de decupar a cena que fizemos semanas atrás (na qual eu tinha que ficar nua da cintura pra cima) em vários planos: primeiro um plano geral, depois closes dos dois atores em cena, e planos-detalhe que mostram as mãos do ator desenhando sobre o meu corpo. Aliás, pra quem ficou curioso sobre o porquê da nudez, é justamente porque o personagem masculino, um estudante de medicina, faz desenhos sobre o corpo da personagem feminina, uma modelo. Com isso tive que tirar a blusa de novo na semana passada e ontem, e comecei a me acostumar com a coisa. :) É claro que ainda é constrangedor, mas o pessoal da escola (tanto colegas quanto equipe) é muito profissional e não fica fazendo comentários. E está sendo interessantíssimo descobrir como se decupam cenas e como se fazem planos, tanto no nível técnico como interpretativo. O resumo da ópera é que é muuuuuuito difícil, e é isso que está me fazendo sofrer desta vez. Depois de uma deliciosa fase de grande autoconfiança, que chegou ao ápice com os elogios que recebi do pessoal da FAAP que me dirigiu no curta, entrei numa de auto-questionamento e desamparo. Ontem, além de estar literalmente nua, me senti nua emocionalmente também. Estava confusa no set, desamparada, sem saber o que fazer. Quando fazia alguma coisa, sabia que estava fazendo muito aquém do que podia, mas não sabia qual caminho seguir para fazer o máximo. Cheguei em casa e criei um clima pra poder pôr pra fora as lágrimas que ficaram guardadas durante a aula. Na penumbra, ouvindo “The Scientist” do Coldplay, chorei sem medo. Fase de cruz que se segue à ressurreição da páscoa. Fase rica de aprendizado, com toda a certeza. Cruz que tento acolher de braços abertos e coração sereno, pois sei que querer ficar permanentemente num único estado de espírito faz parte da neurose e da mentira que a sociedade contemporânea quer nos vender: a da felicidade completa cem por cento do tempo. Crescer dói e, como sabiamente disse a minha querida amiga Bethania, (também ela uma artista), “quem se casa com a arte necessariamente se casa com o sofrimento também”. Os alegrinhos que me perdoem, mas acho que ela está coberta de razão. Arte é prazer, mas também é dor. E enquanto tenho que caminhar meu pequeno calvário pessoal, me consolo com o último email que recebi da fofíssima Daniella Saba, co-diretora do curta:
"Querida, só queria te dizer que o prazer maior foi nosso em tê-la com a gente na equipe. Tem coisas que são intuitivas mesmo, né?! A gente já sabia que era você desde o começo...
Assistimos hoje o filme revelado, adoramos! Deu tudo certo, ainda bem. Você está ótima!!
Obrigada por tudo, Cris..."
Espero que assim seja...
Escrito por Cris às 17h09
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