Trinta e três


A Liberdade É Azul

Que bom que há coisas nobres que me fazem chorar pra compensar o choro de ontem ao telefone com o funcionário da Unicard. :) O que me tirou lágrimas emocionadas hoje foi rever na telona um dos meus filmes preferidos, A Liberdade É Azul. Infelizmente a cópia estava ruim e o som não fazia jus à beleza da música original do filme. Um filme desses merece ser visto em cópia perfeita, em sala moderna.

Acho que o vi pela primeira vez uns dez anos atrás, em vídeo, e revê-lo agora, quando tenho a mesma idade da personagem principal (trinta e três!), foi uma experiência transformadora. Além da experiência de vida que adquiri nesses dez anos e me fazem ver o filme de outro jeito, presto muito mais atenção em detalhes artísticos que só reforçam a minha idéia de que Krzysztof Kieslowski foi um gênio. A fotografia do filme é de uma beleza ao mesmo tempo forte, etérea e original, e a associação entre imagens e música é perfeita. Já se disse que Kieslowski tem olhos de criança para as cores, e eu concordo plenamente. A atuação da Juliette Binoche, profundíssima, sutil, afetuosa, madura, é das melhores e mais belas que eu já vi no cinema. Desta vez também descobri novos níveis de compreensão do roteiro. Daria de bom grado cinco anos da minha vida pra fazer um filme como este e ter um papel estupendo como o de Julie. Vou dormir muito diferente do que acordei hoje graças a essa experiência, e como tenho um dia cheio amanhã vou deixar para o fim de semana toda a filosofia religiosa sobre o nu. O post está tardando, mas vai chegar. :)



Escrito por Cris às 23h25
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"No meio do caminho tinha um Unicard..."

Nada como um belo imprevisto para liberar as emoções contidas. Numa curta semana de muitas emoções misturadas; do misto entre vitória pessoal pelo ensaio fotográfico de domingo e frustração porque o dito cujo não ficou perfeito; de um ataque brutal de rinite; de mágoa e decepção com alguém querido e admirado; de frustração e nervoso com o tempo que continua teimando em escapar das mãos como sempre sem dar a oportunidade da gente fazer tudo o que precisa; de ansiosa espera de uma resposta importante que virá ao passo lento daquele que foi questionado; numa semana destas, quem diria que as mais fortes emoções aflorariam num telefonema para o Unicard-Unibanco. Os infelizes resolveram me mandar um cartão que não solicitei, e liguei hoje para cancelá-lo. Depois de ouvir àquela chatice de menu gravado que obviamente não oferece a possibilidade “para cancelar o cartão que você não solicitou digite 7”, fui apertando os números indicados meio às cegas para chegar a 10 minutos de espera. É engraçado como nessas situações 10 minutos parecem durar umas duas horas. Desisti de esperar, mas já estava puta da vida e resolvi ligar de novo. Tempo da segunda espera antes da linha cair: 18 minutos. Já possessa, sentindo-me como uma chaleira que tinha sido posta no fogo e já entrava em plena ebulição, digitei naquela merda de menu o único número em que sabia que seria atendida por alguém de carne e osso: “para comunicar perda ou roubo do seu cartão digite...”. Soltei os cachorros no coitado que me atendeu, dizendo que eu tinha perdido muito tempo da minha vida tentando solucionar um problema que eles haviam arranjado pra mim e que queria aquele cartão cancelado naquele minuto. Logicamente ele tinha que transferir a ligação, pois cancelar cartão não era da alçada dele, ao que eu respondi que só aguardaria por 30 segundos antes de decidir encerrar a conta no banco ou ir ao Procon. Não deu outra: depois de transferida aguardei mais do que os 30 segundos estabelecidos e a linha caiu. Foi quando minha irmã, que já me ouvia aos berros pela casa, resolveu ligar do telefone dela. Foi atendida de cara. O pobre Bruno, único que me atendeu decentemente nesse processo todo, ouviu as reclamações de praxe de que eu sou autônoma, ganho por hora, estava perdendo muito tempo pra resolver mais um problema que me arrumavam além dos muitos que eu já estava enfrentando naquela semana e por aí vai, e então comecei a chorar. Ele começou a se desculpar, eu repetia que ele não tinha nada a ver com aquilo mas que eu estava puta com o pessoal da Unicard, ele se desculpava de novo, eu soluçava, até que ficou tudo como era dantes e eu resolvi ir solucionar o problema na agência. Foi tragicômico. Um pouquinho mais de humor e teria sido felliniano. Uma bênção: consegui, finalmente, chorar de soluçar, e pôr pra fora todas as emoções que precisavam ser liberadas--depois de quase uma hora ao telefone. Só foi pena que aconteceu com o pobre do Bruno, que deve ter ficado pensando que tipo de vida aquela infeliz que falava com ele levava pra chorar tanto por causa de um problema com cartão de banco. Não sei se esse pessoal se dá conta de que esse tipo de problema é só a ponta do iceberg, coisa que acaba catalisando as mazelas cotidianas da gente. O que não me impede de estar louca da vida com a Unicard e decidida a ir ao Procon, que é pra eles pararem de mandar para os outros o que não é solicitado, e facilitar a vida de quem liga pra eles. E com isso vai-se o espaço que eu pretendia dedicar neste post à filosofia do nu. Fica para o próximo.

Escrito por Cris às 23h31
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O segundo nu

Passei a tarde do dia dos namorados pelada com o Rogério. Ele e mais quatro pessoas, sendo que a única nua era eu... :) Pois é, quem diria: venci a timidez e trabalhei de modelo para um amigo fotógrafo, muito talentoso, num ensaio de nu artístico. Engraçado como as coisas acontecem ao mesmo tempo: um mês atrás e fiz o primeiro nu cinematográfico como atriz. Agora, ainda como atriz, fiz um nu fotográfico. Na verdade o meu sonho era ser modelo de escultura, mas descobri que o meu corpo não é bem o tipo usado por pintores e escultores pelo fato de eu ser muito magra. Eles normalmente usam mulheres mais cheinhas, que acabam produzindo um resultado mais bonito esteticamente nos respectivos meios. Mas para fotos eu acho que sou um tipo razoável, ou então um fotógrafo sensível como o Rogério não teria topado trabalhar comigo como modelo.

As fotos vão ser usadas para o portfólio dele e possivelmente para exposições do trabalho dele. Ainda não estão prontas, mas sei que ele usou um filme em preto e branco e tirou cem poses digitais coloridas, a maior parte de detalhes. O trabalho é difícil: pra começo de conversa, tive que passar o dia praticamente sem comer pra não dar diferença no tamanho da barriga. Tive o corpo todo maquiado por uma profissional, o que não o deixa menos melecado. As poses me renderam uma bela dor na coluna no dia seguinte. Mas o pior de tudo é conseguir se soltar. Vestida eu já tenho dificuldade para me soltar diante de uma câmera fotográfica; nua a coisa se complica um pouco mais. Se bem que, assim como aconteceu na escola de atores, depois de um tempinho a gente acaba se acostumando, pois todo mundo é muito profissional e interage normalmente com você, da mesma maneira que quando você está de roupa. O que só reforça a idéia que eu já tinha de que a malícia está no interior das pessoas, não nos fatores externos; idéia essa que não é nada original, por sinal. Nos Evangelhos já se encontra uma afirmação de Jesus num sentido parecido: “É do coração do homem que saem as impurezas”, etc. O fato é que eu não estava lá para me insinuar sexualmente para ninguém, e ninguém da equipe que fez as fotos (fotógrafo, iluminador e maquiadora) tampouco tinha esse objetivo. O ensaio era puramente estético. Assim mesmo, por ser nu, tenho certeza que vai gerar críticas de várias pessoas que conheço pela aparente contradição com a minha conduta religiosa. Aliás, no próprio domingo à noite recebi a notícia de que havia uma mentira deslavada e bastante desabonadora a meu respeito que havia corrido à boca pequena entre algumas pessoas na minha paróquia. Ouvi a notícia entre dando de ombros (pois é mentira, mesmo, então não tenho com que me preocupar) e assustada com a capacidade que algumas pessoas têm de fantasiar a respeito dos outros. Mas no caso do nu artístico as críticas que surgirão serão sobre um fato real, embora eu mesma não veja sombra de contradição entre meus princípios religiosos e o trabalho que fiz. Mas isso fica para o post de amanhã, pois envolve muita filosofia. :)



Escrito por Cris às 22h18
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