Trinta e três


Corpos Pintados

Ontem fui ver no Parque do Ibirapuera a exposição de fotografias “Corpos Pintados”, e lá encontrei tudo de que havia falado no meu post: o corpo nu tratado com “o respeito que todo corpo merece”, pra citar o texto de apresentação da exposição. Valeu a pena tê-la visto. É fascinante ver a maravilha que é o corpo humano enquanto criação divina e o quanto ele pode ser transformado. Algumas séries de fotografias incomodavam bastante pelo que queriam mostrar ou denunciar, mas considero que isso tb é função da arte. Uma delas, que mostra anciãos japoneses nus, é impressionante ao nos lembrar da finitude à qual nosso corpo vai fatalmente chegar.

Logo depois da exposição fui traduzir o monge inglês D. Laurence Freeman, líder mundial do movimento da Meditação Cristã, que se dedica a praticar e ensinar a oração contemplativa. Foi o coroamento de uma tarde que se iniciou com outro tipo de contemplação, a da arte. Logo mais estou indo para Vinhedo para fazer o difícil, cansativo, mas muito gratificante trabalho de ser a intérprete de D. Laurence em três dias de retiro de meditação. Acho que isso vai rechear de boas notícias e reflexões o próximo post deste blog. :)



Escrito por Cris às 12h02
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O prometido ensaio: erotismo, nudez e religião (!)

Difícil começar este ensaio. Aliás, isto é na verdade um rascunho de ensaio: tenho certeza que um dia vou enriquecer minha base teórica para reforçar algumas das teses aqui apresentadas.

Comecemos dizendo que a relação do erotismo com a tradição judaico-cristã começa na própria Bíblia com o Cântico dos Cânticos. Quem prestar atenção a esse maravilhoso livro (o preferido de São João da Cruz, por sinal) verá que se trata pura e simplesmente de um poema erótico. Nele não se menciona em lugar algum a função procriadora do sexo, mas apenas o seu aspecto de beleza e união apaixonada entre dois amantes. Há trechos inteiros em que se descreve a beleza física dos dois personagens principais envolvidos no poema, dentre eles o muito explícito versículo 5 do capítulo 4, que diz: “Teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela pastando entre os lírios”. A maior parte do cristianismo, infelizmente, sempre lidou muito mal com esse erotismo. Prova disso é que nunca ouvi uma linha do Cântico dos Cânticos recitada em nenhuma cerimônia de casamento católico, quando sempre pensei que não há livro da Bíblia mais apropriado para a liturgia matrimonial do que esse. Nos casamentos judaicos, ao contrário, há um momento em que a noiva recita o versículo 3 do capítulo 6: “Ani Le Dodi ve dodi li” (“Eu sou do meu amado e meu amado é meu.”) Um aparte: quem quiser ouvir arte da maior qualidade baseada neste trecho ouça a versão musicada que a cantora judia Fortuna fez dele, cantada junto com os monges beneditinos do Mosteiro de S. Bento em São Paulo, no CD Caelestia. Mas voltando ao Cântico dos Cânticos, mesmo que a nossa Santa Igreja, na minha opinião, lide mal com seu erotismo, há um motivo pelo qual ele está na Bíblia, e este motivo em última análise explica o porquê de eu ter aceitado fazer um nu artístico: a transcendência. Tudo o que há de tangível no mundo existe em função da sua transcendência, e evidenciar a transcendência que existe no tangível é um trabalho de união entre o mundo material e o espiritual. É por isso que o ser humano busca a beleza em tudo: nos sons que fazem música, nas cores, nas formas, nos movimentos, e também no próprio corpo. Muitos tipos de arte buscam evidenciar e destacar a beleza das coisas em função da transcendência a que essa beleza pode levar. É por isso que se fotografam flores e paisagens, e não vejo porque não se fotografar o corpo humano também, pois o ser humano é, na sua totalidade – corpo e alma – imagem e semelhança de Deus, criado por Ele. Se Ele nos fez como coroamento da criação, que é de uma beleza de tirar o fôlego, por que não ousarmos usar a fotografia do nu para evidenciar a beleza humana, de corpo e alma? O que me incomoda é ver, muitas vezes, o corpo despido de alma, o nu gratuito, sem nenhuma transcendência ou, pior ainda, banalizado e mercantilizado. Vejo problemas, por exemplo, numa propaganda muito engraçada da Porto Seguro Seguros, em que todo mundo reclama com o zelador do prédio que tem um problema em casa e ele manda todo mundo ligar para a Porto Seguro. Todo mundo menos uma mulher que interfona para ele com uma voz toda sensual dizendo: “Ai, Zé, meu chuveiro queimou, eu estou toda ensaboada...” Ele vai mandá-la ligar para a Porto Seguro mas se arrepende e resolve subir. A propaganda é engraçada e bem feita, e não mostra ninguém nu, mas mercantiliza o erotismo. É o prazer pelo prazer, ou ainda pior: é malícia sensual usada pra vender um produto. Nisso vejo problemas, assim como vejo problemas na Playboy e revistas afins. O objetivo das revistas pornográficas é justamente o oposto do transcendente: é alienar as pessoas da transcendência explorando seus instintos mais básicos. Por isso eu não faria um ensaio de nu para a Playboy por dinheiro nenhum. Com o perdão da linguagem chula, sei que a maior parte dos compradores de Playboy usariam as minhas fotos para se masturbar no banheiro, o que me faria sentir usada como um pedaço de carne sem alma. Mas não admitirmos que há outro tipo de arte, muito nobre e teologicamente correta, que se pode fazer com o nu, é negar toda a arte clássica e greco-romana; é negar o “Pensador” de Rodin e as belas esculturas de Maillol; é negar a Vênus de Boticelli e o Davi de Michelangelo com toda a beleza e expressividade de suas formas; é censurar toda a Capela Sistina. Por falar em Capela Sistina, nela encontro o auge daquilo que tento demonstrar na minha argumentação. Jamais vou esquecer a experiência de vida que foi ter visitado a Capela Sistina restaurada em 2003 com meu pai. Tirou meu fôlego. Me transportou a um outro mundo, um mundo espiritual do qual eu não queria sair nunca. Contemplar a beleza das figuras pintadas por Michelangelo foi uma forma de oração, de elevação, e muitas destas figuras estavam nuas ou seminuas, inclusive o Cristo do painel do Juízo Universal: seminu, musculoso, vigoroso, belíssimo, transcendente. Algumas figuras daquele painel, tanto entre os condenados quanto entre os redimidos, tinham sido originalmente pintadas nuas por Michelangelo, mas mais tarde algumas pessoas acharam que aquilo não ficava bem e mandaram pintar paninhos cobrindo a sua genitália. Porém, na restauração da capela promovida pelo papa João Paulo II, considerado por muitos um papa moralmente conservador, as pinturas desses paninhos foram retiradas. E poucos meses atrás o moralmente conservador Joseph Ratzinger se tornou o papa Bento XVI numa eleição que aconteceu nessa mesma capela, com 108 cardeais podendo se deleitar e se elevar espiritualmente ao contemplar a nudez ou seminudez de Adão, de Eva, da Sibila de Delfos, de Cristo, dos santos e de tantas outras pessoas ali pintadas genialmente.

É claro que é impossível eu ter o domínio sobre os sentimentos de todos aqueles que virem as minhas fotos. Alguns maníacos se excitam ao observar crianças (totalmente vestidas, diga-se de passagem), que é o que eu acho que há de mais não-erótico no mundo. Isso é monstruoso, mas existe, e não temos domínio sobre isso. Também é bom que se ressalte que as fotos não foram um trabalho só meu, mas que eu confiei também no fotógrafo. Aceitei fazer as fotos com ele porque acho que ele tem talento, sensibilidade e bom senso, mas ainda não vi as fotos e pode ser que alguma me desagrade. Mas as intenções que tive ao fazê-las foram as mais nobres, ou seja: usar a expressão do meu corpo e do meu rosto como meio para mostrar o que há de bom, de belo ou de instigante na minha alma, e fazer as pessoas atingirem algum grau de transcendência ao contemplar as fotos, se deparar com alguns sentimentos e refletir sobre eles. Se fui ou não bem sucedida no meu intento eu ainda não sei, e não sou só eu quem vai poder dizer. Mas que não fiz nada contra a boa teologia católica, isso não fiz. Ou então que se rasgue o Cântico dos Cânticos e a obra de São João da Cruz e se destrua a arte de Michelangelo.



Escrito por Cris às 23h15
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