Gentileza - parte I
Como da outra vez em que fui intérprete exclusiva de um retiro, voltei exausta e esgotada do retiro de meditação cristã com D. Laurence Freeman no domingo, mas espiritualmente renovada. Desta vez não traduzi os atendimentos individuais que ele fez, e mesmo a natureza dos atendimentos era outra: ele não falou tanto em nível pessoal com as pessoas, mas sobre os grupos de meditação em si. Assim mesmo, aquele inglês com precisão de Oxford de D. Laurence me levou às raias da loucura em alguns momentos. As nuances de significado das palavras que ele escolhe e sua clareza e objetividade de pensamento, temperados com o mais fino humor inglês, são impressionantes. D. Laurence fala de modo claro e pausado, o que dá a muitos a impressão de que é uma pessoa fácil de interpretar. Ledo engano, engano que eu mesma cometi da primeira vez que o ouvi. Todas as suas falas sempre foram muito mais difíceis de interpretar do que situações aparentemente mais cabeludas, como o diretor de cinema que uma vez desandou a falar e ficou uns dez minutos contando histórias, esquecendo de que estava sendo interpretado. Ao final daquele evento muitos vieram me parabenizar pela minha “memória prodigiosa”, pois ao cabo de 10 minutos de monólogo do sujeito eu lembrava em detalhes do que ele havia falado e traduzi tudo. Mas é muito mais fácil lembrar em detalhes de uma história do que falar de teologia abstrata. Sem falar dos momentos em que D. Laurence resolveu usar termos de grego clássico, que eu fatalmente pronunciei errado ao traduzir. Também “inventei” uma citação de Santo Irineu, pois não me lembrei direito de uma palavra da citação e acabei mudando o seu sentido. Mas D. Laurence é extremamente gentil para me corrigir, e parece gostar bastante do meu trabalho. Quem gostou mesmo foi o público do retiro. Vários vieram me agradecer, e uma senhora que não vou esquecer até me levou um pacotinho de bombons ao final do retiro, pois disse que se não fosse eu ela não poderia ter participado por não entender inglês. Foi de uma gentileza tão doce que eu não tive como não ficar tocada. Além dos deliciosos chocolatinhos que ela me deu, trouxe de volta pra São Paulo a sabedoria e a clareza crítica de D. Laurence e a lembrança de várias pessoas ótimas que conheci. Engraçado: foi um retiro de silêncio em que as pessoas puderam conversar muito pouco, mas meditaram muito juntas. E saímos de lá com a nítida impressão de que uma amizade forte havia se formado. Fora que a quantidade de mulheres que encontrei lá e estão loucas pra me ver desencalhada foi assombrosa, mas isso é outra conversa. :) Sem dúvida uma outra forma de gentileza e carinho para comigo. Enfim, valeu.
Escrito por Cris às 15h35
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