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As rosas falam
Cartola estava apenas parcialmente certo: às vezes as rosas falam, sim. Falam a língua delas, mas pra bom entendedor elas deixam clara a sua mensagem. No sábado passado a fascinante Thaís, que ficou hospedada em casa, comprou duas belíssimas rosas vermelhas, daquelas de pétalas grandes. Ela ia usá-las para dançar depois de um almoço que preparou com enorme carinho para a minha família. O almoço, por fim, saiu atrasado, nós tínhamos compromisso depois dele e acabamos deixando as rosas fora d'água até a noite. Quando voltamos pra casa elas estavam ameaçando murchar, mas eu conversei com elas com todo o carinho, cortei o talo, pus na água gelada e o milagre aconteceu: na manhã seguinte estavam exuberantes, vistosas, alegres, com a cor forte, intensa e vibrante, reflexo das características da querida Thaís que as havia comprado. À noite, quando finalmente a Thaís dançou, elas estavam no ápice da beleza, com as pétalas firmes, apontando a corola para o céu. Ontem, porém, apesar da minha tentativa de fazê-las reviver de novo, elas acabaram murchando, com certeza absorvendo toda a energia triste que pairava sobre a casa por causa da morte do pai da Cynthia. Acabaram indo junto com ele. Carregadas de musicalidade que estavam, espero que tenham levado um pouco de perfume para ele na sua viagem para o outro lado da vida.
Escrito por Cris às 21h54
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Sem título
Não dei título a este post porque não sei como descrever o que está acontecendo. Amo as palavras e trabalho com elas, mas, como acontece a muita gente, em momentos particularmente difíceis elas são insuficientes.
Ontem duas bombas caíram na minha cabeça: primeiro, meu tio que havia enfartado voltou para a UTI. Passou mal novamente e não sabemos ainda por quê. O fato é que ele está sofrendo, muito nervoso e deprimido. Pior ainda do que isso foi receber a notícia de que o pai da minha irmãzinha Cynthia, que sofria de câncer, também teve que ser levado às pressas para o hospital por ter passado muito mal. A Cynthinha, ex-aluna de graduação do meu pai nas Faculdades Senac, viu nele um guia, e foi prontamente “adotada” por ele. Desde o ano passado ela vem fazendo trabalhos de secretariado para meu pai e convive muito com a gente: viaja conosco, vamos juntos ao cinema, conversamos. É um encanto de menina de 20 anos, sempre alegre, espontânea, divertida, sensível, antenada. Virou mesmo minha irmãzinha mais nova. Foi duro ver essa menina receber o telefonema da irmã de sangue, que chorava muito, dizendo que o pai estava numa ambulância a caminho de um hospital no meio de sofrimentos atrozes. Por sorte ela estava na minha casa e eu pude acompanhá-la ao hospital. Ela tentava não perder a sapequice e o bom humor, mas tinha crises de choro. Ao chegarmos ao hospital recebemos a notícia de que as chances de sobrevivência do pai dela eram mínimas. De fato ele não passou da noite de ontem, e de madrugada se foi. Desde ontem tenho me sentido chorosa, impotente, triste por ver a indizível tristeza da minha queridona e não poder fazer nada para aliviar sua dor. Queria poder, de algum modo, diminuir essa carga opressiva que foi colocada sobre os ombros tão jovens da minha amada Cynthia, mas a dor nos torna solitários. Ninguém é capaz de sentir o que sentimos nas dores mais agudas. Peço apenas aos que lerem este post e tiverem algum tipo de vida espiritual que rezem por ela e pela família.
Escrito por Cris às 22h22
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Atendendo a pedidos: A Experiência de Taizé
Como tive 3 votos a favor, resolvi publicar, sem censura, sem cortes e sem acentuação, o email que mandei para os meus amigos em setembro de 2003, quando passei um dia em Taizé. Como o email é muito grande, dividi o post em 2. Bonne chance.
"Queridos,
O teclado frances é diferente do nosso e esta me dando muito trabalho, por isso nao esperem muitas acentuaçoes. Assim mesmo aqui vai a narrativa de minha experiencia em Taizé, que acho que posso compartilhar com vcs.
Para quem nao sabe, Taizé é uma aldeiazinha no centro-leste da França, quase divisa com a Suiça, e que é a capital européia, se nao mundial, do ecumenismo. Nessa aldeia um homem presbiteriano suiço de nome Roger Schutz começou um trabalho em 1940 de refugiar judeus. Para isso comprou uma casinha na vila, e la ficou por dois anos ate ser descoberto pelos nazistas e mandado de volta para a Suiça. Depois que a guerra acabou ele voltou para la com mais tres amigos suiços para fundar uma comunidade monastica. Quando o numero de rapazes chegou a 7, em 1949, eles fizeram os votos de viver em oraçao, pobreza e celibato, e formaram uma comunidade monastica. Impressionado com sua experiencia na segunda guerra e vendo o que a intolerancia podia produzir, irmao Roger decidiu começar a trabalhar o ecumenismo, que hoje eles chamam de fraternidade entre cristaos, e passaram a aceitar homens de outras denominaçoes cristas para viver no mosteiro com eles. A obra foi crescendo a tal ponto que ir. Roger trabalhou como observador do Concilio Vaticano Segundo. Foi nessa ocasiao que meu pai o conheceu, mais de 40 anos atras.
Tive contato com os irmaos de Taizé no ano passado, no retiro ecumenico que fiz em Itaici, e desde la fiquei com esse lugar na cabeça. Alem de Berlim, foi o unico lugar que pedi para meu pai incluir na viagem. Foi uma dificil escolha entre ir a Taizé e Lourdes, mas com certeza valeu a pena.
Hoje na vila de Taizé moram mais de cem irmaos que vivem em comunidade e em absoluta pobreza. Nao aceitam doaçoes de qualquer tipo e nao aceitam nem a propria herança em favor de si proprios, mas vivem apenas do proprio trabalho. Alem da casa dos irmaos, ha um lugar onde se oferecem retiros de 1 semana durante praticamente o ano todo. Para esse lugar de retiros vao cerca de cinco mil jovens europeus e do mundo todo a cada semana do verao europeu. Logicamente nao pude fazer o retiro de 1 semana, mas quis ir la por um dia para conhecer o lugar e ter um gostinho da experiencia. Quando liguei para perguntar se havia lugar para ficar com meu pai de sabado para domingo passado, a moça me disse que os alojamentos eram muito simples. Pensei comigo: "tranquilo, pra quem viaja ficando em albergues e ja ficou hospedada na Casa de Retiros de Siloé em Atibaia deve ser fichinha." Eu fiz retiros nos Estados Unidos e sabia da infra-estrutura que as casas religiosas dos paises ricos tem. Sei tb que eles normalmente se impressionam com a simplicidade em que vivemos. A moça de la entao perguntou a minha idade e a do meu pai. Quando disse a ela que ele tem 72 anos ela me disse que ele ia ficar em um local separado com 1 ou 2 senhores da idade dele, e que eu ia ficar num quarto com mulheres da mesma idade que eu.
Chegamos la no sabado a tarde, e fomos acolhidos por um jovem portugues. Por ele fiquei sabendo que um rapaz brasileiro que havia feito comigo o retiro de Itaici no ano passado estava morando la e trabalhando como voluntario. Conversei com ele e fiquei sabendo que no momento ele era o unico brasileiro morando em Taizé. Depois da acolhida fui assistir ao que eles chamam de "forum das naçoes". Sabado é o ultimo dia do encontro semanal, entao o pessoal que mora la faz uma apresentacao do seu pais: falam do pais e da obra que fazem la e apresentam alguma musica ou dança tipica. Cheguei no fim do forum, por isso so vi a apresentaçao de " paises: Bolivia, India e Laos. Como tradutora e interprete fiquei impressionada com uma coisa: o pessoal falava em sua lingua, que era traduzida para o ingles por um interprete, e outros dois interpretes passavam a mensagem do ingles para frances e espanhol (a chamada interpretaçao em relay). Isso ja me dava uma ideia da quantidade de grupos presentes la. Ao sair do forum essa impressao so fez se confirmar: nunca vi reunidas num so lugar tantas linguas e cores diferentes.
Depois do forum, ao ir para o quarto e depois para o jantar, me dei conta do que me esperava. O lugar é muito pobre mesmo para padroes brasileiros. Os jovens e adultos ficam hospedados em quartos de 4 pessoas com beliche e nao ha roupa de cama, so sacos de dormir. Os banheiros sao comum para um grupo de mais ou menos 10 quartos. Como Murphy existe, fiquei no quarto mais distante do banheiro, e ao levantar para ir ao banheiro à noite, como tenho que fazer pelo menos 1 vez por noite, tinha uma caminhada pela frente. Foi ai que entendi a razao pela qual meu pai, por ser idoso, ficava num lugar separado, sem beliches e com banheiros mais proximos. Mas se alguem pensa que a precariedade do local afasta os mais velhos esta redondamente enganado. Divindo o quarto com meu pai estava um senhorzinho japones, que havia viajado sozinho 12 horas de aviao, mais 3 de trem e 1 de onibus (que é o tempo da viagem entre Paris e Taizé) para ficar 4 dias la. Aquilo me impressionou vivamente, por ele tao velhinho ter vindo sozinho de um pais que nao tem a minima tradiçao crista para ficar la em tanta pobreza. No jantar a experiencia continuou: nao ha copos, so cuias de plastico para se beber agua, e um unico talher que é usado nas refeiçoes: uma colher. Ela foi usada para o macarrao e o flan da sobremesa no jantar, e tambem para mexer o leite com chocolate ou café e passar manteiga e geleia no pao no cafe da manha. Para o almoço do domingo havia pure de batatas, ovos cozios e uma maça e um bolinho de sobremesa. Tambem nao ha mesas, mas comiamos sentados em bancos num grande galpao coberto por um telhado de madeira ou numa tenda armada num gramado. Meu pai comentou, brincando, que aquilo lembrava alguns filmes de presidio que ele tinha visto."
CONTINUA NO PRÓXIMO POST. :)
Escrito por Cris às 23h01
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... continuando: Taizé
CONTINUANDO:
"Depois de jantar ouvindo todas as linguas do portugues de portugal ao alemao, de japones a linguas africanas cujo nome eu nao sei, e de ter conversado em ingles com um rapaz e uma moça francesa muito simpaticos, fui para a oraçao da noite. E foi la que percebi a força daquilo tudo.
A igreja de Taizé é, das igrejas modernas que conheco, a que achei mais bonita. É ampla, cheia de velas permanentemente acesas, com muitas plantas e poucos vitrais e ícones. Pede-se silencio do povo ja na entrada, e o pedido é respeitado. Ha poucos bancos junto as paredes para os idosos, mas a maioria das pessoas senta no chao. Na parte central sentam-se os irmaos de Taizé, que para a oracao vestem um habito branco. No sabado a oracao é chamada "Liturgia das Luzes da Ressurreicao", e todos acendem uma vela no final da oracao. Tanto ela quanto a missa de domingo sao muito simples: compoem-se basicamente de cantos e leituras curtas lidas em varias linguas, dentre as quais reconheci 5: frances, ingles, alemao, espanhol e polones. Acho que tanto pelo espirito da comunidade quanto pela dificuldade que seria fazer um sermao para falantes de tantas linguas, a homilia é substituida por um tempo de silencio para meditacao. Ja os cantos de Taizé sao cantos proprios, que consistem basicamente de refroes curtos cantados a varias vozes pelo povo presente e repetidos varias vezes. Como me lembrei da pastoral da musica da S Luis la! Como queria que vcs estivessem presentes comigo! Com certeza todos estavam la no meu coracao, mas queria que estivessem la para ouvir a beleza daquela musica. Foi uma pena os cds deles ser tao caro para meus bolsos brasileiros e eu nao ter podido compra-los. Espero achar algum deles por um preco mais razoavel no Brasil. Mas o fato é que os cantos e a forca daquela oracao me impressionaram muito, e me fizeram entrar num contato profundo comigo mesma. No principio comecei a pensar na minha vida ate aquele momento, especialmente nas coisas que havia deixado de fazer e que achava que precisava fazer, e obviamente me lembrei das pessoas queridas. Mas foi aí que senti Deus tocar meu coracao e me dizer: "Nao é isso que eu quero de vc agora: quero que vc esteja aqui na sua essencia. Apenas vc, sem os outros por enquanto, e apenas o seu ser, e nao o seu fazer." Acho que essa é a razao da pobreza externa do lugar: é um caminho para nos encontrarmos com a nossa pobreza interior, que, da mesma maneira que a pobreza exterior, nao é necessariamente desoladora. Foi o que senti ao encontrar em contato com minha propria pobreza, e foi uma experiencia extremamente intensa. Logo depois disso lembrei da voz da minha psicologa que um dia me disse: "Vc sempre pensa no que deixou de fazer. Parece que passou a vida em branco, quando vc ja viveu muito. Por que nao pensar no que fez e valorizar o que ja fez ate aqui?" E aí foi isso que comecei a fazer, louvar a Deus por tudo o que ja fiz. So entao entreguei a Ele o que falta fazer. Foi um momento especial.
No final da celebracao o Ir. Roger liderou a saida dos irmaos apoiado numa crianca. Ele passou bem do meu lado, olhando as pessoas com uma forca e uma paz tao intensas que me lembraram aquela passagem do evangelho do jovem rico, que diz que Jesus olhou para ele "e amou-o". Acho que o olhar do Ir. Roger naquele momento era a ilustracao mais proxima do olhar de Jesus naquele evangelho. Obviamente sendo quem sou, ao ver aquele homem ja tao velhinho, curvado, usando aparelho para a audicao, olhando para aquelas pessoas com tanto amor, e ao pensar na grandeza da obra que ele iniciou com tanta simplicidade, coragem e pobreza, comecei a chorar. Mais tarde tive a oportunidade de dizer a ele que meu pai o havia conhecido 40 anos antes no Concilio Vaticano Segundo, e de receber o mesmo olhar de amor que ele deu a todos que havia olhado antes.
Por falar no meu pai, fiquei muito emocionada com a atitude dele tb. Fora o comentario sobre as refeicoes, que foi mais uma piada que uma reclamacao, o homem nao deu um pio, nao abriu a boca pra reclamar de nada, muito pelo contrario: suportou toda a precariedade do local, que eu sei que é muito dificil pra ele, com amor. Dias antes ele havia me falado do sentido original da palavra "peregrinar" em latim: quer dizer "viajar por caminhos dificeis". Foi exatamente o que ele fez, sem reclamar.
Espero poder escrever para vcs ainda algumas vezes para falar sobre minhas impressoes da Franca, de onde sai ha 2 dias. Agora estou na Alemanha, onde ainda vou ficar por mais 4 dias. Mas por enquanto vai essa narrativa da minha experiencia de Taizé, que quis compartilhar com todos de quem me lembrei la.
Muitas saudades a todos,
Cris"
Escrito por Cris às 22h36
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