Trinta e três


Fruto da ansiedade?

Vejamos: estou com uma suspeita de anemia e tenho umas 150 páginas pra traduzir até quinta que vem. Acho que não mata, mas até a próxima sexta continuarei, como já estou, em falta com meus emails, telefonemas, leituras de blogs e tudo o mais que faz parte de uma vida regular. Até lá nada de cinema, bate-papos de qualquer natureza, blog ou namoro (snif). Limbo por uma semana. Ainda bem que Santo Antônio providenciou alguém muito compreensivo.

Escrito por Cris às 22h09
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Considerações sobre a ansiedade

Quem leu o comentário do Mazinho sobre meu post “Trinta e quatro!” encontrou lá uma das afirmações mais verdadeiras que se pode fazer sobre a ansiedade, particularmente sobre a minha ansiedade: “Agora eu vejo que essa coisa da ansiedade é privilégio - ou será suplício - de artistas?” Mazinho, querido, fico com a segunda opção. Nesta mal começada semana, quando se abriu para mim a primeira oportunidade de meter os pés pelas mãos, não perdi tempo: foi exatamente o que fiz. Como se trata de uma situação que envolve outras pessoas, e não é todo mundo que gosta – ou tem a necessidade, talvez – de se expor como ferida aberta como eu faço, não vou entrar em detalhes. Só dá pra dizer que enfiei o pé na jaca com gosto, falei o que não devia antes de pensar e quando vi o estrago já estava feito. Paciência. A sorte é que pra tudo na vida existem choro, riso, espírito e arte pra nos curar. Não necessariamente nesta ordem – aliás, sem ordem nenhuma, como é típico – chorei o leite derramado, ri da minha própria falta de tato, escutei Coldplay e desabei no colo de Jesus pra tentar dar um jeito na minha própria ansiedade.

Acho que minhas opções por ser atriz e tradutora não aconteceram à toa. Não sei criar arte própria, sei apenas me aproveitar da arte alheia. Minhas próprias mazelas não me inspiraram canções, mas me levaram a usar uma belíssima canção do Coldplay como forma de catarse. Também não por acaso, o que veio a calhar para lidar com a minha ansiedade foi um trecho do livro que estou lendo, Uma Arte de Amar para os Nossos Tempos, de Jean-Yves Leloup. O livro é uma reflexão sobre o Cântico dos Cânticos, o meu Cântico dos Cânticos, livro da Bíblia com o qual mais me identifico, provavelmente por expressar a forma de relação visceral, apaixonada, simbólica, transcendente e até erótica que eu tenho com Deus. Paixão à la Teresa de Ávila. O trecho que li ontem antes de dormir era uma reflexão sobre o versículo 9 do capítulo 1: “Minha Bem Amada é uma égua atrelada à carruagem do faraó”. O autor começa dizendo que, para um povo nômade como o judeu, nada podia ser cumprimento maior do que comparar alguém a uma égua, símbolo da vida e da liberdade. Depois ele diz que “o faraó simboliza as forças obscuras que nos habitam”, a sombra. “E um caminho em direção à luz, em direção ao amor, que fizesse uma economia da sombra, ... arriscaria a ser uma ilusão, um amor muito superficial”. Portanto, “o amor é o enfrentamento da sombra e sua transformação, porque tudo o que não é assumido não será salvo”. A égua que nos atrela à sombra para fazê-la caminhar seria então o nosso lado indomável e nossa força selvagem. Apesar de muitas vezes eu achar que não tenho uma égua dentro de mim, mas um rinoceronte, a lição que fica é a da última citação do magnífico Leloup: tudo o que não é assumido não será salvo. Portanto nada melhor do que uma bela pisada na bola para me lembrar que esse meu lado tem que ser cada vez mais assumido. Com base nisso, preparei a minha meditação de hoje com o cântico de Taizé que diz: “Confiemo-nos ao Senhor, Ele é justo e bondoso” pra lembrar a mim mesma que devia meditar tornando presente na meditação a minha luz e a minha sombra diante de Jesus. E a noção de que Ele me aceita assim como sou, a certeza de que com Ele posso ser eu mesma, não preciso medir palavras, posso me escancarar, e ainda assim o amor dEle por mim é o mesmo, foi a cura de que eu precisava.

Pra concluir pedi a Ele uma palavra e abri a Bíblia no episódio da negação de Pedro. Ah, o bom e velho Pedro. Ninguém mais como eu do que ele: pronto a arroubos apaixonados de amor pelo mestre, para logo em seguida fazer as maiores besteiras, a ponto de ser o único discípulo que Jesus chama de “satanás”. Quanta humanidade a desse Pedro. E quanta sabedoria de Jesus em escolher justamente ele para ser a rocha sobre a qual construiu a sua igreja. Uma rocha, como disse D. Laurence Freeman, “meio caindo aos pedaços”. Nada mais significativo do amor louco que este Jesus tem pelos pobres estabanados deste mundo como eu. Valeu, Mestre. “Tu sabes tudo, sabes o quanto te amo”.



Escrito por Cris às 11h22
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