O Governador, o Presidente e o Povo - um ensaio
Nunca se ouvira falar dele. Alguns da velha guarda, quem sabe, pois há cerca de trinta anos ele se candidatou a senador pela extinta Arena, o partido da ditadura militar. Depois só ocupou papéis coadjuvantes. Mas, tal qual assombração, apareceu de repente, com todo o destaque, no meio de um pesadelo.
Os homens públicos deste país não primam pelo cuidado com a aparência. Sabem que seu dinheiro e poder compram tudo, inclusive as belas meninas de Jeany Mary Corner, com quem devem ter momentos de prazer que as respeitáveis esposas de fachada não lhes proporcionam. Como quase tudo na política brasileira, é a mentalidade pré-Revolução Francesa que domina. Mas no caso deste senhor a coisa passou dos limites: a cara cadavérica, a pele mal cuidada e, principalmente, aquelas enormes sobrancelhas que se assemelham a taturanas geneticamente modificadas, as quais nunca devem ter visto sombra de uma tesoura para apará-las. Após as surreais declarações à imprensa feitas por ele, um comentário de minha tia jogou luz sobre a situação: “Será que o peso das sobrancelhas o impede de raciocinar?” É a única explicação possível. Vai ver por conta de sua triste figura, ele, qual D. Quixote às avessas, imaginou (ou fingiu) que os gigantes contra quem estava lutando não passavam de moinhos de vento imberbes. Com toda empáfia e cinismo, declarou, depois de mais de 24 horas de terror em São Paulo, que o estado não precisava da ajuda do governo federal pois estava “tudo sob controle”. E lá se foi Cláudio Limbo inaugurar mais uma obra.
Por que é que esta criatura de trem fantasma foi se meter a sair do limbo político em que se encontrava e que jamais deveria ter deixado? E por que não teve um pingo de humildade ao ser promovido a protagonista do inferno? Até mesmo o William Puxa-Saco-Do-Roberto-Marinho Bonner teve um momento de lucidez e lhe perguntou: “Se tudo aconteceu de acordo com o planejado, como o senhor classifica as mais de oitenta mortes que ocorreram nestes três dias?” Mas Cláudio (cujo nome significa “manco”) saiu pela tangente e disse que foram “fatalidades”. Espero que volte logo ao limbo de onde surgiu.
Depois foi a vez do nosso presidente. Ao comentar os acontecimentos de São Paulo, Luís Inácio Einstein da Silva declarou que eram “uma demonstração de poder por parte dos bandidos, que queriam assustar a população”. Puxa, não é que, se ele não tivesse falado, ninguém teria percebido?! Faltou acrescentar que o céu é azul e a roda é redonda. Depois, para justificar a falta de política de segurança pública do governo federal, acrescentou a velha pérola falsa de que não há mágica, que aquilo é uma situação muito complexa e que não pode ser resolvida de uma hora para a outra. Em parte sim: os problemas de fundo, como desigualdade social e falta de educação exigem resolução a longo prazo. Mas complexa é a situação israelense-palestina, não a segurança pública brasileira. Dos investimentos sociais a medidas de segurança propriamente ditas, tudo é muito simples, não tem segredo. Todos os lugares que tiveram problemas semelhantes e resolveram de fato colocar em prática alguma coisa colheram resultados bastante expressivos em pouco tempo: três a quatro anos no caso de Bogotá; menos de dez em Nova York, por exemplo.
Aqui vai minha difícil previsão para o que vai ocorrer a partir de agora: o governo federal vai anunciar um “pacote de medidas de emergência” inócuas enquanto continua cortando a verba para a segurança. O congresso vai fazer umas firulas e enrolar até o final do ano com um paliativo aqui, outro ali, mas não vai votar nenhuma das leis propostas para mudar a legislação. O judiciário continuará mudo, e só ouviremos falar dos senhores juízes quando o assunto for aumento do próprio salário – ou ameaças de paralisação por que este não sai. Os três âmbitos de governo continuarão a jogar a culpa um sobre o outro até a época das eleições. Toda essa situação será capa das revistas de maior tiragem do Brasil, a começar pela Veja Que Mentira. Não haverá Código Da Vinci (ou, como diria a cantora Ana Carolina, seria Código da Venda?) que consiga tirar esse assunto da pauta até o próximo fim de semana, e a população vai continuar reclamando a portas fechadas. Mas dou no máximo um mês para que isso tudo seja esquecido e só volte à tona no ano que vem, depois de passadas as eleições, quando estourar outra crise e morrerem mais uma centena de negros e pobres em alguma metrópole do país.
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Minha indignação é pelo seguinte: nós, brasileiros, somos tão egoístas que só sabemos tomar medidas que protejam o nosso próprio umbigo ou as pessoas próximas. Quem pode blinda o carro e contrata segurança particular; quem não pode amaldiçoa o governo e deixa de sair à noite. Ninguém se dá conta de que só é possível resolver alguma coisa da situação de corrupção, miséria ou violência no âmbito público. O brasileiro ainda está longe de se tocar que é melhor viver num país rico do que ser rico. Não reparte riqueza nem benefícios, e só toma decisões individuais. Mas tudo, repito: TUDO o que foi feito de efetivo para a diminuição da violência no país se deveu à ação de alguns poucos com espírito de coletividade que partiram para trabalhar em ongs. Foi o caso do Jardim Ângela, por exemplo. Lá há um padre irlandês que teve a coragem de deixar o conforto e a beleza de seu país em franco crescimento para ir morar num lugar em que a maioria absoluta dos paulistanos não ousa pisar. No meio deste pânico generalizado que tomou conta de São Paulo não vejo ninguém falar em mandar emails para o congresso, realizar manifestações ou organizar alguma ação em grupo para resolver o que se passa em aqui, ou no Rio, ou em Vitória. E assim encerro com a difícil previsão de que tudo vai ficar tudo como era dantes no quartel de Abrantes, seja lá quem tenha sido este sujeito. É, cada povo tem o governo que merece mesmo. Criado à sua imagem e semelhança.
Escrito por Cris às 11h37
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