A Copa, claro
Como toda brasileira que não entende nada de futebol, santista meia-boca que só assiste a um jogo inteiro de quatro em quatro anos, sinto-me no direito (e no dever) de palpitar a respeito da nossa seleção. Não fiquei assim tããão triste com a derrota do Brasil na Copa. Espero que ela tenha dado um fim à Era Parreira e que a CBF pense duas vezes antes de escalar outro treinador de “futebol de resultados”. No fim, ficamos sem o resultado e sem o futebol. A primeira copa que acompanhei foi a de 1982, e de lá pra cá não houve seleção brasileira que jogasse tão bonito quanto aquela. Preferi perder com ela a ganhar com a de 1994. Gosto de futebol arte. E pra dar aqueles chutes para cima e ajeitar a meia como fez o Roberto Carlos, eu topava jogar ganhando 5 por cento do que ele ganha.
Mas, diferente de muitos brasileiros, o que me levou a escrever este post foram os quatro hinos nacionais das seleções que estão nas semifinais. O hino da Itália tem a melodia mais cômica que eu já ouvi em hinos nacionais. Mais ainda: das melodias mais cômicas que já ouvi, ponto. Além de mudar o andamento mais de uma vez, ele modula o tom no meio. Já o da Alemanha, composto por Haydn, é das melodias mais bonitas já compostas. Pena que eu o tenha aprendido nos filmes que falavam de nazismo. Mas como não é hino que ganha jogo, a Itália acabou levando a melhor. Espero que este raciocínio valha também para o jogo de amanhã, pois se fosse uma competição de hinos Portugal iria para o saco já no primeiro tempo.
Ao contrário do que parece, meu sobrenome Coimbra não é nada fiel a meus ancestrais. Os portugueses da minha árvore genealógica estão bem mais distantes do que meus bisavós italianos, tataravôs franceses e outros ascendentes espanhóis. A mistura inclui, como a de quase todos os brasileiros, negros (relativamente próximos) e índios (bem distantes). Mas amanhã serei “portuguesa com certeza”. Em primeiro lugar, porque é o único time que não tem títulos, e acho que merece um. Em segundo, por causa do Felipão.
Mas, voltando ao hino, se fôssemos levá-los a sério, o que aconteceria amanhã seria não um jogo, mas um banho de sangue. Os portugueses pegariam em armas, enquanto os franceses regariam o solo com o sangue dos filhos de Portugal. Tudo para, finalmente, os portugueses entrarem pelo cano – quase literalmente. Vejamos este hino inconseqüente, como bem o definiu a figura que é o meu pai. Seus primeiros versos dizem: “Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal / Levantai hoje, de novo, o esplendor de Portugal”. Ou seja: de acordo com o hino, o esplendor de Portugal está no chão, e parece que caiu várias vezes, visto que precisa ser levantado “hoje de novo”. Essa pérola continua tendo o desplante de rimar “voz” com “avós”, típica rima à procura de uma idéia, e se encerra chamando o bravo povo a “contra os canhões marchar, marchar”. Algum outro povo por um grande acaso marcha contra canhões? Depois dizem que nossas piadas de português não fazem sentido. A Marselhesa põe esse hino pra correr em três tempos. Tomara que, assim que ocorreu com o jogo de hoje, o povo que ganha no hino perca no jogo.
Escrito por Cris às 22h13
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