Uma historinha interessante
Fui ao cinema com meus amigos Bethania e Renato no sábado à noite, emendando logo em seguida com uma parada pra comer a comida mais junk que eu já coloquei boca adentro: um cachorro quente com salsicha condimentada, acompanhada de todos os lixos possíveis, no Black Dog da Al. Joaquim Eugênio de Lima. Lá se juntaram a nós os queridos Zé e Ana Maria Yoshitake, um amigo deles e o Edílson. Terminado aquele banquete romano lá pela 1:30 da madrugada, Bethania e Renato, na sua imensa gentileza, me acompanharam a pé até a porta da minha casa pra em seguida irem a pé até a casa da Bê, já que não tinha mais ônibus e dinheiro pra táxi é algo inexistente na turma.
Quase em frente à minha casa surge um pobre de um americano todo constrangido, perguntando se algum de nós falava inglês. Como eu e Bethania dissemos que sim ele explicou sua situação: tinha sido assaltado por dois pivetes armados algumas horas antes. Os dois tinham levado tudo o que ele tinha, portanto ele foi à polícia e fez um B.O. O problema é que a polícia não podia levá-lo de volta para a casa dele, que ficava na R. Portugal, perto da R. Nebraska, no bairro do Brooklyn, e ele não tinha como voltar. Estava sem dinheiro, sem cartão, sem documentos e sem acesso ao consulado. Ele já havia falado com o pessoal do hotel que fica no quarteirão da minha casa, que por sua vez tinha falado com um motorista de táxi, mas o cara não quis ajudá-lo. Ele pediu dinheiro emprestado para o táxi, dizendo que faria questão de devolvê-lo na segunda-feira. Disse que trabalhava na escola americana Graded aqui em SP (que eu conheço) e que podia ver se eles adiantariam alguma coisa pra ele. Disse também que estava morando aqui há pouco mais de um mês, por isso ainda não falava português direito. Pra mim fez sentido, pois era a época de início de aulas na escola. Apesar da nossa desconfiança, não só a história dele tinha muita lógica como o sotaque americano dele era perfeito. Não me saía da cabeça que estávamos lidando com a polícia paulistana, que já aprontou poucas e boas para mim e para pessoas conhecidas, portanto não me admirava que não levassem o cara de volta pra casa. Minha intuição não estava particularmente inclinada a ajudá-lo, mas por via das dúvidas dei 15 reais para o táxi. O Renato deu dez e assim completamos o valor aproximado do táxi até o Brooklyn. Muito agradecido, ele fez questão de me dar o email dele, dizendo que, mesmo que eu não quisesse o dinheiro de volta, ele queria retribuir de alguma forma. Sendo assim, peguei o email dele e fiz sinal para um táxi que, por coincidência, passava ali na frente naquele momento. O cara perguntou se era seguro chamar táxi no meio da rua, pois ele mesmo só tomava táxi em pontos ou em hotéis. Mas eu disse que era seguro, dei o endereço para o motorista e pedi que ele levasse o gringo (que eu descobri se chamar Mike Austin) até a casa dele.
Essa última foi a única parte recompensadora da história. Descobri mais tarde que havia caído no conto do gringo. Ou seja, mesmo que ele descesse do carro três quarteirões pra frente (como, por um momento, desconfiamos que ele poderia fazer ), 5 reais dos que eu e o Renato perdemos foi para um trabalhador que, ao contrário do sem-vergonha pseudo Mike Austin, estava ganhando a vida honestamente às 2 da manhã de um sábado. Descobri o conto do vigário quando o email que mandei para o endereço que ele tinha me dado voltou. Em seguida, fui ao site da Graded School e descobri que não havia nenhum Mike Austin listado entre os professores.
Claro, depois que passou, vi que o engodo era óbvio. A troco de quê um gringo estaria perdido em São Paulo à noite sozinho? Por que não tinha saído com amigos? E por que saiu de uma delegacia para ir pedir dinheiro na região da minha casa, que fica vários quarteirões distante do DP mais próximo? Além do mais ele não tinha aparência de professor da Graded, uma escola de elite onde se pagam vários milhares de reais de mensalidade. Estava meio largado e tinha o rosto um pouco encovado. Nós três estávamos um pouco desconfiados e minha intuição não se comoveu muito, mas pensei em como seria estar no lugar dele e resolvi ajudar. Eu, que me senti culpada de gastar R$ 9,70 no Black Dog, dei 15 reais para um gringo que provavelmente cheirou tudo em pó branco.
Na segunda-feira, conversando com um policial conhecido meu, descobri que a polícia leva, sim, a pessoa para casa (ou pelo menos próximo dela) num caso desses. Num primeiro momento pensei: “Que beleza, São Paulo tá de um jeito que até gringo tá se especializando em 171. Virou o paraíso dos golpistas.” Depois me dei conta de que isso só funciona porque há gente generosa na cidade, que se preocupa com quem parece totalmente vulnerável. Tenho certeza de que não sou a única. Eu mesma já estou calejada com golpes parecidos e há muito não caía num deles, mas acabei me preocupando com a situação de alguém que, como eu, já foi estrangeiro em outras terras — pelo menos aparentemente. Fiquei com dó mesmo é do Renato, que além de voltar pra casa a pé ainda perdeu grana pra um bandido. Mas Deus viu a retidão da intenção dele e há de recompensá-lo pela perda. Pelo menos é o que peço a Ele. :) Pior seria endurecer de vez o coração e não ajudar a quem um dia esteja realmente necessitado. Nesses casos a minha intuição não costuma falhar, então agora só dou dinheiro quando ela me autorizar. E que a história fique de lição (e diversão) pra quem ainda não passou pelo golpe do gringo. :)
Escrito por Cris às 21h49
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