Despedida
Tenho que admitir: minha tentativa de reavivar este blog que ainda fumega não foi bem-sucedida. O pobre continua jogado às traças. Na celebração de Lava-Pés de hoje o padre falou sobre nossas experiências de morte já vividas -- planos que têm de ser deixados pra trás entre elas. Acho que este 33 é um deles -- pelo menos por enquanto. Como estou vivendo uma experiência muito intensa na minha vida pessoal resolvi criar um outro blog, esse sim temporário: http://cancerianas.blogspot.com/. Fica a sugestão pra quem eventualmente ainda aparecer por aqui.
Por hoje deixo, como o fechamento de um ciclo, um pequeno mimo: uma crônica sobre uma experiência que tive na Quinta-Feira Santa do ano passado. Aproveitem. Beijos.
O Teste
Quinta-feira Santa. Chegava naquele 2007 a sua época preferida. Como cristã que era, ia passar de novo, como em todos os anos, pelos momentos mais decisivos da vida do seu Mestre: a despedida dos amigos, a saudade, o abandono, a angústia, a tortura, o desespero, a morte, o repouso e, finalmente, a ressurreição. Desde que se tornara católica aquele era seu tempo litúrgico preferido. Vivia tudo com o Mestre até explodir na realidade irrefreável da vida derrotando a morte. Como a chama isolada no fundo da igreja escura acesa no Sábado Santo, que ia se repartindo sem perder a força, aquele tempo reforçava nela a grande delícia de pertencer àquela religião: para aquela gente não há morte sem ressurreição.
Coincidentemente aquela Quinta-feira Santa também trazia o ponto mais alto, até agora, de sua vida de atriz – ou melhor, de projeto de atriz. Tinha sido chamada no dia anterior para um teste. Não um teste qualquer: um teste para o longa-metragem mais caro já produzido no país, dirigido por aquele considerado o maior diretor brasileiro em atividade. Alguém cuja Cidade de Deus foi de cara para a lista dos melhores filmes da vida daquela cinéfila e de lá não mais saiu. Ainda tinha a lembrança vívida de uma quarta-feira cinco anos antes, do filme que não saiu de sua cabeça a noite inteira, tanto na vigília quanto no sonho. Mais: o diretor tinha passado no teste do segundo filme depois de seu estouro internacional, feito cada vez mais raro na atual conjuntura. O Jardineiro Fiel também tinha ido parar, despretensiosamente, na lista dos filmes queridos daquele projeto de atriz. E hoje seria seu grande dia: tantos questionamentos, idas e vindas nas escolhas profissionais, cursos, tentativas, semi-tentativas, abandonos, tudo isso finalmente fazia sentido. Sempre tinha tido dúvidas sobre se valia a pena lutar pela carreira. Pela carreira, não sabia; por esse filme com certeza sim. Alguém ali certamente descobriria seu talento escondido, os elogios acalentados dos curta-metragens do passado fariam sentido e os 35 anos de espera e dúvida valeriam a pena. O material mandado na Quarta-feira de Cinzas, coincidentemente, encerrava sua missão no último dia daquela quaresma.
O namorado se atrasou para buscá-la. Além de nervosa ela estava irritada: não entendia por que ele insistia em chegar atrasado em seus momentos cruciais. Nada podia ser tão arrasador quanto perder aquele teste. O coração disparava, faltava o ar, ela não sabia se caía no choro ou xingava o namorado até a última geração. Ele ria. Não estava atrasado: ela é que estava ansiosa.
Chegaram pontualmente à casa onde aconteceria o teste. Por fora, nada de especial. Por dentro, assim que o portão de metal maciço se abriu, viu um jardinzinho gramado, grande sonho de consumo da quase-atriz paulistana. Verde, terra, um vislumbre de natureza no meio da cidade desgarrada. Uma senhora de avental e andar gostoso a recebeu e a levou ao andar de cima. Na sala havia um pequeno grupo de pessoas sentadas. Cumprimentou-os com o invariável sorriso largo. “Quando você sorri é o seu rosto inteiro que sorri”, dizia o pai dela. O ator sentado na poltrona à direita concordou: “Que sorriso bonito!” Engraçado, ela achava a mesma coisa do sorriso dele. Conversaram sobre as amenidades que a situação pedia até que ela decidiu que era hora de se trocar para a dinâmica de grupo.
Entrou no banheiro e viu, ao lado da pia, um painel de cortiça com fotos. De frente para o vaso sanitário havia também uma câmera com o aviso “Sorria, você está sendo filmado!” Ela não acreditava: “Alguém roubou a minha idéia!” Riu sozinha e percebeu, ao colocar as calças batidas dos aquecimentos corporais, que, por mais que a câmera fosse falsa, a presença dela e do aviso que a acompanhava causavam um certo constrangimento. Exatamente como ela tinha imaginado.
Voltou à sala e ficou observando. Ao lado do aparelho de telefone havia um papel bem visível colado à parede com o nome “Fernando” e um número de celular. A senhora do andar gostoso serviu café para os que queriam. Uma assistente da produtora chegou, localizou as fichas com fotos e nomes dos atores e distribuiu uma ficha e um questionário para serem preenchidos. Nome, cor dos cabelos, cor dos olhos, peso, altura, número de DRT, o de sempre nessas ocasiões. O questionário tinha uma página quase inteira listando situações das mais variadas ao lado de quadrados onde se devia marcar um “x” se se concordasse em participar delas: pessoas transando, sujeira, lixo espalhado pelas ruas, excrementos, ratos, urubus, pessoas mortas, pregadores de seitas apocalípticas e por aí vai. Ela marcou o “x” em todas, com exceção de “uma bailarina cega”: era péssima dançarina. À pergunta sobre se concordaria em passar por mudanças físicas para participar do filme, respondeu “sim, qualquer coisa”. Não teria o menor apego à sua cabeleira se tivesse que raspar a cabeça, nem dúvida sobre perder 5 dos 49 quilos que tinha.
Chegou o preparador de atores e levou o grupo, que naquela altura já contava com umas dez pessoas, para uma enorme sala de paredes negras e barras de alongamento, como uma sala de balé. Uma das paredes estava coberta por espelhos. Depois de alguns exercícios de respiração ele vendou os olhos de todos e deixou que interagissem. Ela achou que ia ficar desesperada, mas não: tentava andar com calma, guiava-se tocando as paredes com as mãos, tentava explorar as sensações do tato. Achou uma corda junto à parede. Explorava a geografia do espaço às vezes com mais, às vezes menos confiança. Pisou em poças de líquido. Um grande nojo involuntário tomava conta dela cada vez que isso acontecia. Nesse processo perdeu a noção de tempo. Foi quando se deu conta de que estava plenamente no momento presente. Era o ápice da experiência contemplativa. Quem dera isso acontecesse sempre em suas meditações diárias. Era de fazer inveja aos zen, com o perdão da contradição dos termos. Cada inspiração, cada expiração, cada estremecimento de asco, barulho ou toque eram inteiros.
Chegou a hora de tirar a venda e tentar manter aquela sensação. O momento de transição foi difícil, e mais difícil ainda dizer se ela tinha conseguido manter aquele estado enxergando.
Ao final da dinâmica todos saíram do local e voltaram para a sala iluminada de estar. O preparador de atores conversou com o grupo e trocaram impressões entre um café e outro. Depois deviam voltar, um de cada vez, à sala negra, e gravar um take curto. Na vez dela ele disse: “Vai no seu tempo. É a mesma coisa que a gente fez antes, a mesma sensação, só que agora a gente vai pegar um close.” Ela inspirou uma vez: “Você já está cega, né?” ele perguntou. Ela achava que sim.
Terminados todos os takes o pessoal da equipe da produtora se despediu. Os atores foram indo embora aos poucos e ela ligou para o namorado vir buscá-la. Acabou ficando sozinha ali, quando a senhora do andar gostoso finalmente decidiu ir embora também, deixando as xícaras espalhadas. Afinal, era véspera de feriado. Decidiu esperar na calçada, sentada no meio-fio. Observava os carros de auto-escola que passavam por aquela rua tranqüila.
Antes do namorado chegou um carro cheio de adolescentes. Foram estacionando um pouco desconfiados ao ver alguém sentada na calçada. Finalmente um deles saiu do carro: não podia haver perigo naquela mulher mignon de olhar manso e blusa cor-de-rosa, mesmo em São Paulo. Ela se apressou em dizer, antes que ele perguntasse, que tinha saído do teste e esperava o namorado. O garoto de cabelos loiros e olhos claros disse: “Quer esperar lá dentro?” Ela agradeceu: era melhor mesmo.
Ficou esperando no hall de entrada, ao lado da escada, enquanto aqueles quatro ou cinco adolescentes descarregavam do carro alguns equipamentos de som e instrumentos musicais. Viu a correspondência em cima de uma mesinha. Naquele ponto caiu a ficha: o nome sobre a correspondência, os cabelos do anfitrião adolescente, tudo indicava que aquela era a casa do diretor. Por inacreditável que parecesse, ela devia estar na casa de Fernando Meirelles.
O garoto desceu novamente: “A gente vai ensaiar. Quer assistir?” É claro que ela queria. Se não fosse atrapalhar, lógico. Atrapalhar ela viu que não atrapalhava, mas estava se sentindo meio inútil enquanto eles montavam os instrumentos. Tinha que fazer alguma coisa. Resolveu lavar a louça do café que tinha ficado espalhada pela sala. “Não precisa se preocupar,” ele disse. Agora já era tarde. Lavou a louça toda.
Foi quando o namorado chegou. Ela agradeceu a gentileza dos meninos e foi embora.
Foram embora também os meses e ninguém a chamou. Não passou no teste. Quem sabe lhe faltasse talento; quem sabe fossem o corpo mignon, o olhar manso ou a blusa cor-de-rosa. Já tinham me dito: “Se você quer mesmo exercer esta profissão tem que se acostumar com muitos nãos”. Não importa. A grande delícia da minha religião é que não há morte sem ressurreição. Além do mais, no aviso ao lado da câmera do banheiro se lia: “Sorria, você está sendo filmado!” Não vale, Fernando, você roubou a minha idéia!
Escrito por Cris às 23h44
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