Cinema e família
A vida é estranha. O cinema é estranho. A combinação do cinema com a minha vida, então, é estranhíssima. Foi preciso uma dessas pra resolver reativar o "defunto de quatro dias que já cheira mal" (vd. os Evangelhos, episódio da ressurreição de Lázaro) que é este blog. Há duas semanas fui ver o belo Paris, de Cedric Klapisch, como parte do Panorama do Cinema Francês em São Paulo, seguido de um bate-papo com o diretor. Agradeci a ele por centrar seu filme em uma relação entre irmãos, coisa não muito explorada pelo cinema e muitas vezes também relegada a segundo plano na vida. Não devia ser assim nem em um nem em outro. Os irmãos circences que o digam: só esta relação de confiança inquebrantável permite que tantos irmãos, muitas vezes gêmeos, façam os números mais arriscados do mundo do circo em duplas. Só no Cirque du Soleil são uns três pares de irmãos que se arriscam nos trapézios e acrobacias no Saltimbanco, seu espetáculo mais antigo, sem medo de serem traídos pelos pares em seus mortais. Duas semanas e duas cirurgias da irmã depois, eis que entro no filme "errado" no cine HSBC Belas Artes para ver outra relação intensa entre irmãs, transbordando de sacrifícios, doação e até de falta de limites de até onde vai a vida de uma e começa a vida da outra. Se o horário publicado pelo Guia da Folha estivesse certo eu teria visto A Partida, mas quiseram a vida, o cinema e a estranheza que eu visse o delicado Caramelo, filme muito feminino da belíssima Nadine Labaki, que não bastasse ser uma diretora sensível é uma boa atriz e me fez invejar seu rosto o filme todo de tão linda. De Paris ao Líbano no cinema, passando pela vida real em São Paulo, as relações fraternas vão tomando, no sem-alarde que as caracterizam, o espaço que sempre mereceram, não se conformando em ficar relegadas ao não-diálogo e quase esquecimento em que parecem se encontrar neste odioso mundo pós-moderno em que não há irmãos, só rivais. Precisamos de mais circo, mais cinema e mais Bíblia pra nos lembrar a beleza e a força de ser irmão. Imagino que um mundo de filhos únicos seja muito triste -- vide a China presente na esquisitice de seu "socialismo de mercado" e falta de mulheres com quem os solteiros de menos de quarenta possam se casar. Vou deixando essas reflexões aleatórias por aqui. O cinema e fraternidade não estão me deixando pensar direito. Só sentir -- um sentir doído e muito, muito estranho.
Escrito por Cris às 23h53
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